Entre 2005 e 2010, enquanto tentava sobreviver à 1ª faculdade, às provas, aos trabalhos e aos professores que achavam que “participação” era sinônimo de “falar sem parar”, o que hoje meio que faço 😄, algumas pessoas resolveram me fazer algumas perguntas, com um certo receio. Mal sabem que eu não mordo, pelo menos sem motivo 😊 Era uma espécie De Frente com Gabi improvisado no corredor, ou um Conversa com Bial versão universitária.
Inclusive, anos depois, até vídeo fiz no meu Instagram sobre
isso. Porque veja bem, curiosidade todo muito tem, mas coragem de perguntar,
nem sempre. O que me incomoda não é a pergunta em sim, e como fazem. Claro que
para pessoas que não tem deficiência alguma não perguntariam essas coisas né,
mas, respondendo as perguntas na mesma linha do De frente com Gabi e Conversa
com Bial, temos.... De frente com Júlia 😉
Obs: o vídeo falando disso, postei em 2021.
Detalhe, algumas pessoas até podem ter curiosidade, mas não
perguntam. Separei aqui, dentre as perguntas que já fizeram, três que, digamos
assim, foram as que me perguntaram mais, eu acho, e merecem registro.
1.
Você bebe, pode beber?
2.
Você pode dirigir?
3.
Você pode engravidar?
Vamos lá... vou responder, agora já com 40 anos (já que fiz
o vídeo com 36 anos). Pouco tempo de diferença né😉
Bom, respondendo em ontem numérica 😉...
Você bebe? Pode beber? Como se houvesse
um decreto universal proibindo pessoas com deficiência de brindar a vida. Pois
bem: posso beber sim. Não bebo muito, nem todo dia, até porque ressaca não tem
empatia com ninguém, não bebo para ter ressaca mas tudo bem, mas posso. E
agradeço a preocupação, de verdade. Só não agradeço a suposição de que meu
corpo vem com manual de restrições que só os outros conhecem. Isso irrita um
pouco, sabe?!
Segunda pergunta: dirigir. Ah, dirigir… esse sonho antigo.
Quando eu era pequena, imaginava que um dia estaria por aí, volante na mão,
vento no rosto, talvez até com óculos escuros só para dar estilo. Aí veio a
realidade: Paralisia Cerebral, essa condição neurológica que decidiu afetar
justamente minha coordenação motora e meu equilíbrio. Resultado: mesmo um carro
adaptado provavelmente me transformaria num carrinho bate-bate ambulante,
pronta para abraçar o primeiro poste da rua. Mas a vida tem senso de humor. Não
dirijo carro, mas dirijo meu triciclo. E, para minha surpresa, também um barco
a vela, mesmo que pequeno. Quando consegui pela primeira vez, fiquei tão feliz que quase virei o
barco só de emoção😊 Está dando certo, e isso já vale mais que
qualquer carteira de motorista. Acho😎
Última pergunta e, tenho algumas considerações sobre essa
aqui: Não é porque tenho útero que sou obrigada a usá-lo. Até onde sei,
maternidade é escolha, não destino biológico. No meu caso, a decisão sempre
passou por proteção e segurança. Já me disseram que eu estava sendo
preconceituosa comigo mesma, como se alguém além de mim soubesse o que é viver
se equilibrando no próprio desequilíbrio. Eu conheço minhas limitações, minhas
possibilidades e, principalmente, as consequências de cada passo. O que eu não
sei, aprendo no caminho. E, sinceramente, ter ou não ter filhos nunca foi uma
questão para mim. Talvez porque, desde cedo, entendi que meu corpo exige
cuidados extras, especialmente quando o assunto é equilíbrio, físico e
emocional.
Hoje, aos 40 anos, olho para essas perguntas com um sorriso
meio torto, meio irônico. Não porque elas sejam absurdas, mas porque revelam o
quanto as pessoas ainda tentam encaixar vidas como a minha em moldes que nunca
nos serviram.
E sigo aqui, respondendo, vivendo, navegando, literalmente,
e lembrando que, no fim das contas, a entrevista é comigo, mas o roteiro é meu.
Se existirem mais perguntas, respondo mas eu escolho como responder e o
que responder 😉
Hahahaha! Eu imagine muito você dirigindo, Julia! Que caótico! E sobre beber e bebes: não é pra todo mundo mesmo. Eu acho!!!
ResponderExcluirBeijão :)
a mais pura verdade :)
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