sábado, 23 de maio de 2026

Nível...?

 Vivemos aprendendo coisas novas. Todo santo dia. Que excitante, não?! É como ganhar um presente que não pedimos, mas apareceu na porta. Esses dias ganhei um presente surpresa... Descobri mais uma coisa que, sinceramente não sei o que pensar.

Quando chegou a descoberta da minha deficiência, fomos atrás do que pudemos e fizemos o dava para fazer, correto? Isso foi lá entre 1985 (o ano que dei o ar dar graça) até 19 e lá vai bolinha. Vejam...lá atrás eu até sabia que a deficiência se chamava Paralisia Cerebral e, que existiam tipos. A minha carrega o tipo atáxica, que achava que, dos tipos de PC (Paralisia Cerebral), ela fosse a mais leve...entre as demais, claro.

E cresci achando isso, até porque já me disseram que das PCs, a minha é a mais rara e, eu acreditei (sou uma peça rara mesmo😉).

Existem outros tipos de PC e, descobri numa quinta feira a tarde, que existem níveis também... Como se videogame. Ou RPG. Ou plano de assinatura. E como a curiosidade matou a gata (no meu caso leoa pois sou leonina 😄), lá fui eu pesquisar! Hoje em dia com o Google e a IA é relativamente fácil achar coisa.

Primeiro de tudo, descobri em um site: einstein, que Paralisia Cerebral é conhecida por encefalopatia crônica não evolutiva. Olha...até faz sentido se pensarmos, cerebelo, encéfalo, tudo ali no mesmo condomínio neurológico.

Depois, por conta de um grupo de WhatsApp que faço parte, alguém comentou sobre os tais níveis (nenhum médico que já me consultei nunca ouvimos falar disso, minha mãe e eu). Aí coloquei no Google: níveis de Paralisia Cerebral e, o Google, sempre muito prestativo, me entregou um blog explicando os 5 Sistemas de Classificação Funcional. Cinco. Não um, não dois. Cinco.

E foi ali, lendo aquilo, que descobri que muito provavelmente sou nível 2. Nível 2. E eu achando que “nível” era coisa de suporte para autistas. Mas não. Aparentemente, até dentro da PC existe uma espécie de escadinha funcional. 

E eu aqui, quase quarenta anos depois, descobrindo que tenho um nível. Que vivi a vida toda sem saber que tinha um número me acompanhando. Que talvez eu seja mais rara do que imaginava, não só pela ataxia, mas por ter passado décadas sem ninguém mencionar esse detalhe.

Já comentei em certa ocasião que, se chegasse a descobri uma causa ou tivesse mais informações sobre minha condição, seria até legal, mas que nessas alturas do campeonato não mudaria muita coisa na minha vida, só estaria mais informada mesmo. Atualmente o que tenho gostado muito de fazer é combinar o que leio, e o que aprendo com a realidade que vivo e tentar temperar tudo com uma pitada de... humor? 😊

 

 

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Como te respondo?

Tem coisa que a gente não engole. Não desce com água, não desce com café, não desce nem com um suspiro fundo que a gente dá quando quer parecer zen, mesmo quando a alma está mais para panela de pressão😂. Sabe aqueles comentários ou perguntas incômodas que ficam atravessados na nossa garganta? Então, às vezes fica ruminando aqui dentro e não sabemos responder, né? (calma, respira e não pira). Como responde isso gente?

Já me disseram que tenho as respostas na ponta da língua. Ah, quem dera fosse assim.... se tivesse, já tinha virado ninja de devolutiva elegante. Acredito que algumas pessoas precisam que devolvam o constrangimento, sabe. Essa é uma arte que ainda não dominei muito bem 😉, até ensaio mentalmente, mas travo na hora H, a língua se aposenta, a mente congela, e o momento passa como ônibus que a gente vê indo embora enquanto ainda está procurando o cartão. Acredito que aos pouquinhos vou sintonizando direitinho. E olha que tem gente que faz isso como uma diva, sem sair do salto e sem perder o tom, não perde a compostura, as estribeiras😊.

Não dizem que a palavra dita, a flexa lançada e uma palmada (ou soco), são coisas que não voltam mais? Então, a questão é que palavras podem ferir mais do que qualquer flexa (nunca levei uma e espero nunca levar😉). Machucam em um lugar que a gente nem sabe como proteger. E, quando se percebe, já passou o momento de responder, se defender, sequer querer revidar, de tão paralisada que pode-se ficar.

Acho que... devolver o constrangimento seja uma habilidade que aos poucos talvez consigamos encontrar, talvez se aprenda devagar, como quem afina um instrumento para tocar bem. Não digo devolver na mesma moeda, até porque acho que nem concordo muito com isso, mas pelo menos certas coisas conseguir não engolir calada.

Enquanto isso, enquanto tento aperfeiçoar essa técnica de devolver sem ferir ninguém no processo (ainda não sei se é possível), de responder sem me perder no caminho, finto com o básico: calma, respira e não pira.

 

 

 

 

 

                                                                                                                      

quarta-feira, 13 de maio de 2026

A polêmica do cordão?

 Que cordão estamos falando? Uma coisa já adianto, não são aquele cordões dourados ou prateados, com pingentes que brilham no sole e servem para enfeitar o peito quando a gente resolve sair de casa mais arrumadinha. É outro tipo de cordão, um mais polêmico talvez. Um que não enfeita: identifica.

Já faz um tempo, me questionaram sobre cordão de identificação para pessoas com deficiência. Perguntaram por que não usava um. Hum... para que preciso me identificar? Vejamos, convivo comigo mesma e com minhas dificuldades há tanto tempo que para que vou identificá-la? Já sei de cor e salteado os estigmas que podem vir junto com qualquer rótulo, sei onde doí, onde aperta, onde incomoda e, sinceramente não estou disposta a lidar com isso mais um vez. Já carreguei olhares tortos, suposições apressadas e aquela compaixão mal calibrada que pesa mais do que ajuda.

Vejam, não sou contra e nem a favor. A inciativa existe e eu entendo, respeito. É opcional...e essa palavra, opcional deveria vir sublinhada, em negrito, talvez até piscando. Sendo assim, cabe a própria pessoa decidir se quer usar ou não, se vê a necessidade. Há quem se sinta mais seguro/a, mais visto/a, mais compreendido/a. E isso é legitimo.

No fim das contas, cada pessoa sabe do seu próprio caminho. Sabe o que precisa, o que dispensa, o que dói, o que protege. Se o cordão ajuda alguém a respirar melhor no mundo, que bom. Mas se não faz sentido para mim, também está tudo certo.

A polêmica do cordão, no fundo, acho que nem é exatamente sobre o cordão, ou talvez seja, não sei. Acredito que seja mais sobre autonomia. Sobre o direito de escolher como existir, como se apresentar, como ser lida. E isso, ah… isso não cabe em nenhum acessório.

Tem outra coisa que esqueci de comentar...está na lei, tem aspectos legais e tudo, porque no Brasil tudo tem artigo, um inciso, uma portaria escondida em algum lugar, mas não me sinto representada por um cordão. O que deveria ajudar, às vezes atrapalha, sabe. Já somos tradados/as diferentes quando sabem que temos alguma deficiência, para mim esses cordões parecem um aviso luminoso (porque tem cordões de várias cores viu): cuidado. Sei que não é essa a intenção, mas é assim que sinto, que estigmatiza mais ainda. E com isso, não quero faltar com respeito a ninguém ta. É só minha opinião no momento. Estou aberta a conversar se quiserem😉.

E já que estamos aqui, vale esclarecer, vamos organizar isso aqui, só para entendermos direitinho o que cada cordão significa:

Cordão Girassol = identifica pessoas com deficiências ocultas ou não aparentes, como surdez, autismo e deficiência intelectual.

Cordão Quebra-Cabeça símbolo internacional para identificar pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). (confesso que não gosto, pois, quebra cabeça é um jogo de achar peças faltando, não de definir pessoas)

Cordão do Infinito = representa a neurodiversidade, como autismo, TDAH e dislexia.

Deve ter outros por ai, não sei não...

Aí, claro, fui pesquisar o porquê das coisas, que normalmente tenho a curiosidade e o ímpeto de fazer, é quase um esporte para mim.

O girassol, que é uma flor que gosto muito, por exemplo, represente a felicidade, positividade, força e crescimento (pesquisei no Google ta😊). Sinceramente não entendo o motivo de acharem que o girassol fosse a melhor opção para usar como cordão para deficiências ocultas, mas acho que deve ter uma explicação, quase tudo tem né?

O quebra cabeça, acho que dispensa comentários, ou não? Qual a opinião de vocês? A minha já expus😉

Infinito, esse símbolo sim, sempre gostei do símbolo. Simboliza as infinitas variedades, as infinitas formas de ser, de pensar, de existir. Se algum dia eu decidir usar um cordão (que não seja daqueles com pingentes), talvez seja esse.(Ou acho um infinito de pingente). Não para me identificar para o mundo, mas para me lembrar, eu mesma, de que sou múltipla, complexa, inteira.

E, no fim, talvez seja isso: cada um escolhe o que faz sentido para si. Cordão nenhum dá conta da nossa história inteira. Ainda bem 😌

 

terça-feira, 12 de maio de 2026

Intervalo...

Ficar fora da faculdade esse semestre foi como abrir uma janela que eu nem lembrava que existia. De repente, entrou um vento novo, desses que bagunçam o cabelo e, de quebra, o apetite. Não o apetite por comida (esse sempre esteve bem servido), mas o de escrever. Escrever mais, escrever sempre, escrever como quem respira. A verdade é que eu nunca parei, mas agora parece que as palavras voltaram a me cutucar com mais insistência.

E, já que a vida me deu esse intervalo, meio forçado, resolvi preencher e fazer alguns, poucos, cursos que me interessam, para alimentar minha cabeça.  Dentre eles, um curso de educação anticapacitista, que começou dia 30 do mês passado e vai até o dia 12. Logo de cara, me jogaram um conceito novo: DEF. Ainda não sei exatamente o que pensar a respeito. Talvez precise mastigar mais um pouco, deixar decantar.

Mas vamos por parte né.... Voltar um pouco a fita... Curso online, nada de professor chamando pelo nome, nada de levantar a mão. Só eu, a tela e meu caderninho fiel, aquele que já ouviu mais pensamentos meus do que muita gente por aí. Fui anotando tudo que me cutucava, tudo que parecia ter potencial para virar texto, porque algumas ideias são assim: chegam tímidas, mas se a gente não anota, elas fogem pela janela.

Logo na primeira aula, a indagação começou... veio a pergunta que ficou martelando: será que todos conhecemos mesmo o termo capacitismo? E educação anticapacitista? A questão é que acho que se fala de capacitismo, essa palavra circula, aparece em debates, em posts, em discursos, mas nem todo muito sabe o que bicho é esse. Tem gente que acha que é MIMIMI....como se nomear uma opressão fosse capricho e não uma necessidade.

E no meio disso tudo, fiquei pensando em mim. No quanto escuto, dentro de mim mesma: sou capaz...E sou mesmo! Claro que nem tudo vai dar para fazer, até porque ninguém é capaz de tudo, mas aprendi e ainda estou aprendendo, que posso fazer muita coisa quando tento, do meu jeito, no meu ritmo, com as ferramentas que tenho.

Depois é que veio esse conceito até para mim, novo: DEF. Pesei, o que é isso?: Claro, fui pesquisar: parece que é usando em contextos culturais e políticos como abreviatura para deficiência.  Ok, confesso que, por mais interessante a proposta, achei meio estranho, mas vou dar uma chance 😉 Nunca nem tinha ouvido (não é porque tenho uma deficiência que sou “obrigada” a saber tudo da realidade que me cerca. Talvez até devesse, acho, mas não é assim que funciona.

Depois.... o que veio? Um tal de letramento anticapacitista. Ai meu deus, o que é isso? Bom, capacitismo vem de dúvida da capacidade né. Então, anticapacitista é o contrário? Algo assim. Mas aí percebi que não é só isso. Atualmente, depois de muito digerir algumas coisas e adquirir, modéstia a parte, alguns conhecimentos, percebemos que alguns “elogios” acabam por não serem exatamente “elogios” e sim ataques capacitistas sutis, disfarçados, tipo: você é bem bonita, mas tem uma deficiência ou você até que é inteligente, mas.... (já me incomodei muito com esses comentários, mas ... K

O mundo evoluiu (em partes) e, precisamos evoluir com ele né? Claro que leva um tempinho para nos adaptar, nos familiarizar e estarmos abertos a novos conhecimentos, aprender a nomear, etc. Compreender que somos mais do que a deficiência...

Na verdade, no fundo, acho que tudo ou quase tudo é mais sobre como falamos as coisas do que o que falamos. Claro que não dá para sair falando por aí tudo que quer...embora às vezes dê vontade (para algumas pessoas também 😊), dá um alívio enorme.

E você, qual a sua relação com o capacitismo?  Porque, se eu pudesse resumir em uma palavra, a palavra de ordem seria DESCONSTRUÇÃO... Algumas pessoas precisam, na minha opinião, desconstruir alguns discursos capacitistas que ainda são cometidos sem intenção...algumas vezes 😉. Outras precisam desconstruir a si mesmas. E eu, bom… sigo desconstruindo e reconstruindo, como quem ajeita uma casa enquanto mora nela.

 

 

domingo, 3 de maio de 2026

Os outros (cara aberta?)

 Sempre assinei Júlia Maia. Simples, direto, funcional. Nunca me perguntei muito sobre isso: nome e sobrenome, fim de papo, me acostumei assim. Ficou assim como ficam tantas coisas na vida, parte da decoração que a gente esquece de questionar. Nunca tive vergonha do meu nome e nem nada parecido, só aficou assim porque... sim...

Em março desse ano escrevi sobre os Souza, família da minha mãe. Escrevi sobre não saber como foi quando receberam a notícia da minha deficiência. Mas, percebi que acho que nunca escrevi sobre outra metade, a tal metade que nunca entra em cena, os Maia né? Então, Maia é da família do meu pai, como já devem ter percebido. E talvez não fale muito dele porque sinceramente não tenho nem o que falar.

Não conheço a história, e, pra ser franca, nessas alturas do campeonato, não faço questão de saber. Houve um tempo em que quis mais do que um nome na certidão. Queria presença, queria um gesto, queria algo que justificasse carregar esse sobrenome por aí, desde sempre.

Te vi algumas vezes quando já crescida, já adulta. Não vou mentir: bateu aquela emoção de conhecer “o pai”, mas logo passou. Sabe quando acendem umas red flags? Pois é.

Vivi e cresci sem você. E não vou dourar a pílula: isso já doeu demais. Principalmente naqueles dias de festa, na escola, nas datas que parecem feitas só pra jogar na cara o que falta. Mas, do mesmo jeito que a gente aprende a andar de bicicleta (aprendi depois de adulta😉), aprendi a conviver com esse vazio. Eventualmente, acostumei.

Olhando agora, depois de digerir tudo, e não foi fácil, nem rápido, foi o meu processo, que talvez nem tenha terminado (por isso escrevo 😉 ), hoje percebo: talvez tenha sido melhor assim. Talvez o que faltou foi livramento e não perda.

Minha mãe segurou as pontas. Fez o papel dela e o seu, dobrada de trabalho e de amor. Porque, além da filha pequena, veio uma deficiência de brinde, exigindo mais força, mais cuidado, mais tudo.

Cresci com o Maia no nome, sem a história que deveria acompanhar. Um espaço vazio que aprendi a preencher de outros jeitos: mamãe me deu três pais, meu avô e dois tios incríveis. Depois vieram amigos, terapia, escrita (muitas vezes), humor e coragem. O vazio virou lugar de construção, um terreno fértil.

Sigo construindo, escrevendo (às vezes fantasiando, mas sem sair muito da realidade😊), até porque sempre aparece uma coisa ou outra que preciso colocar no papel antes que vire explosão. Acho que escrever é meu jeito, mesmo que pareça meio torto, de extravasar sem descontar em alguém. É meu jeito de abrir a janela quando o peito aperta.

sexta-feira, 1 de maio de 2026

A adulta que não deixam ser

Até que sou uma pessoa com paciência e tolerância para algumas coisas, claro. Sempre achei que paciência fosse uma espécie de músculo: quanto mais a gente usa, mais forte fica. Mas, ao que tudo indica, com o passar dos anos ele também sofre desgaste, como joelho de quem subiu muita escada na vida. E eu, que sempre me considerei alguém paciente e tolerante, tenho percebido que algumas coisas andam me tirando do sério com uma facilidade quase olímpica.

E nada tem me irritado mais do que essa mania que o mundo, ou melhor, algumas pessoas, têm de me tratar como criança e, isso, confesso, me irrita mais do que eu gostaria de admitir. Não criança no sentido poético, de quem ainda vê encanto nas coisas. Criança no sentido literal mesmo, de quem não sabe, não pode, não entende... A que precisa que falem por ela às vezes, e de preferência em público principalmente, para aumentar a humilhação (que bad gente).

Eu sei, claro, que para os pais a gente nunca cresce de verdade. É quase uma lei da natureza: filhos permanecem pequenos na memória afetiva, mesmo quando já tem cabelos grisalhos, algumas rugas (será?), já pagam boletos (não é meu caso ainda) e reclamam de dor nas costas. Mas existe um plot twist nessa história que costuma complicar ainda mais essa equação: ser filha atípica.

Pais atípicos, ou seja, pais de filhos com deficiência e, aqui falo com todo cuidado, porque sei que cada família é um universo, parecem viver com uma dúvida permanente estampada no olhar. Cada coisa que faço, cada decisão que tomo, cada passo que dou, vira uma interrogação silenciosa: “É ela… ou é a deficiência?” Como se eu fosse duas pessoas separadas, uma encaixada dentro da outra, e eles nunca soubessem qual das duas está no comando.

E eu fico ali, no meio desse malabarismo identitário, tentando provar que sou adulta. Não a adulta idealizada, perfeita, organizada, com planilhas e manual-de-instruções de maturidade. Mas a adulta que eu posso ser, a adulta possível. A que existe do meu jeito, com minhas possibilidades, meus limites, minhas conquistas, minhas teimosias e meu caos perfeitamente funcional. (pode não ser funcional para os outros, mas para mim é).

Costumo dizer, meio brincando, meio pedindo socorro, que só preciso que me deixem ser adulta do jeito que posso ser. Não é tão complicado assim. Ou talvez seja, para quem ainda insiste em me ver com a idade que eu já não tenho faz tempo.

No fim das contas, acho crescer é isso né: Não apenas aprender a lidar com o mundo, mas ensinar o mundo a lidar com a gente. E, convenhamos, esse trabalho dá muito mais trabalho do que deveria.

 

 

 

                                                                                                                      

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Como é, moça?

 Não sou de polemizar, muito menos de causar nenhum desconforto, mas entre o dia 27 e 29 de abril desse ano, enquanto participava do 3º Congresso Brasileiro Estudos sobre as Pessoas com Deficiência e Demandas Psicossociais (tinha participado só do 1º, em 2024), no formato online, algo me cutucou por dentro. Daqueles cutucões que fazem a gente levantar a sobrancelha e pensar: ué, será que só eu ouvi isso?

Estava lá, caderninho aberto, como sempre faço em cursos online, anotando impressões, frases soltas, ideias que me atravessam. No primeiro dia, ouvi a seguinte pérola: “Esqueçam aquela ideia de que deficiência é sinônimo de limitação”. Não pude interromper, como numa aula mesmo, mas pensei bem alto dentro de mim: Calma, moça… não existe limitação?  Eu convivo com as minhas diariamente. Até converso como elas de vez em quando. Aprendo com elas.

As limitações que me acompanham desde o instante que nasci, hoje percebo que não me limitam, me desafiam. Sei e se não sei aprendo que, se não consigo de um jeito, tento de outro. O que não pode e não deve é transformar limitação em sinônimo de incapacidade. Aí, sim, a gente tropeça no preconceito alheio.

Tenho uma deficiência, mas não é ela que me tem. Isso precisa ficar bem claro, por mais difícil que pareça e mesmo quando o mundo insiste em embaralhar as coisas.

O congresso foi ótimo, abordou temas importantes, dos quais gostei bastante, mas lá estava eu, fiel ao meu caderninho, anotando tudo o que fazia sentido, e o que não fazia também😉Afinal, convivo com minha deficiência desde pequenininha e ela é minha, não no sentido de posse, mas de intimidade. Pois existe uma complexidade em vivenciar a deficiência que que não cabe em slide, mesa-redonda ou discurso empolgado. Que mesmo cheio de gente ao nosso redor, muitas vezes travamos batalhas silenciosas: o sentimento de inadequação que aparece sem ser convidado, a luta diária pelo direito de existir e ocupar espaço, a insistência em não deixar que o mundo nos diminua. É um trabalho que, no fim das contas, fazemos muito mais conosco do que com qualquer outra pessoa. E isso é mais conosco mesmo.

E talvez seja por isso que aquela frase me intrigou tanto. Não porque estivesse errada, mas porque parecia ignorar que, antes de superações e discursos bonitos, existe vida real. E na vida real, limitação existe, sim. O que não existe é desistência.

E o resto do congresso? .... Ah, o resto, deixo para os próximos capítulos. Ou não...Sabe, foram três dias de congresso, mas o que realmente mexeu com minhas estruturas foi isso 😊

 

 

 

                                                                                              

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Deixar para trás e agradecer

Há coisas que, quando olho para trás, até agradeço. Coisas que a gente só entende quando olha pelo retrovisor da vida. E olha, no meu caso, esse retrovisor já meio embaçado, precisando de um limpa-vidros emocional. Mas funciona, na hora, parecem tragédias pessoais, injustiças cósmicas, puxões de tapete cuidadosamente coreografados pelo destino.

O que hoje chamaríamos de livramento (na minha época acho que não era esse nome não 😉), mas o efeito é o mesmo: a vida tira algo da sua frente como quem recolhe um copo prestes a cair da mesa. A gente reclama, claro. Dói, mas faz parte do show. Só depois a gente percebe que esse copo já estava trincado, e faz tempo.

Virar a página não é tão simples quanto parece. Não é como nos livros, onde você pode deixar um marcador de página e voltar quando quiser. E arrancar um capítulo inteiro dói, dói como tirar Band-Aid de pele sensível. Parece legal, poético, mas quem inventou essa metáfora do Band-Aid certamente nunca precisou arrancar nada que realmente importasse. Porque cada página que a gente arranca deixa uma cicatriz discreta, daquelas que só a gente sabe que existe, mas uma cicatriz que cicatriza com o tempo.

E vou confessar: eu, que sou bastante emotiva para algumas coisas, esquecer de certas coisas ou até mesmo de pessoas, não tem sido um processo fácil. Na verdade, quase nunca é, mas acho que chega um momento que temos que dar marcha ré para não doer mais ainda.

Doeu um pouco, mas preciso pensar que foi melhor assim, acho que se pensar de outra forma enlouqueço. Ainda assim, a gente segue. Meio mancando, meio teimando, mas segue.

E, no caminho, no meio desse processo, a gente descobre umas verdades incômodas. Por exemplo: aquela massagemzinha no ego quando alguém do passado dá sinais de vida. É doce, claro. Mas é doce tipo bala que a gente ganha na saída do consultório, inesperada, simpática, mas totalmente dispensável. A gente não precisa disso para seguir respirando, embora o ego insista em dizer que sim.

No fim das contas, virar a página talvez seja mesmo o melhor que pode acontecer. Não porque o passado era ruim, às vezes até era ótimo, mas porque a gente merece histórias novas. E porque, convenhamos, tem coisa que só faz sentido quando vista de longe, com a serenidade de quem já sobreviveu ao próprio caos.

"Livramento" é uma palavra bonita. Não só pelo som, mas pelo que carrega: a ideia de que a vida, às vezes, sabe mais do que nós. E que, de vez em quando, o maior favor que ela pode nos fazer é tirar da nossa mão aquilo que jurávamos ser essencial.

Agradecer vem depois. Sempre vem. É só questão de tempo.

E olha... enquanto escrevo isso, parece mais uma confissão, e talvez até seja... Sabe, escrever o que sinto tem disso uma espécie de purgação, como se jogasse tudo numa fogueira imaginária e assistisse queimar.

Claro que ainda tenho algumas inseguranças e tal, não sou tão bem resolvida quanto às vezes pareço ser, mas estou tentando e espero sinceramente estar conseguindo...até para o meu próprio bem😊

 

 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Um tal documentário...

Que diabos é machosfera? Juro que essa palavra me bateu como um tapa de luva de pelica. É um bando de macho fazendo macheza, batendo no peito, se gabando aos quatro ventos? 😂Ri sozinha achando que era tipo pegar todos os héterotop, esquerdomacho, egos inflados e afins.... e colocar tudo no mesmo balaio só (ou numa esfera, tipo panelinha, bem fechada para mais ninguém entrar). Esses estereótipos de masculinidade tóxica.

Isso tudo porque, há um tempinho, assisti a um documentário chamado Luis Theroux: Por Dentro da Monosfera. Confesso que não me interessei muito de cara (talvez tenha sido o título ou o fato de ser documentário, que não costuma estar no meu repertório). Mas resolvi dar o benefício da dúvida.

A capa ou cartaz do documentário já te diz alguma coisa (pelo menos para mim), o cara fortão, musculoso, dando uma chave de braço nesse Louis...hum...curti não. Mas respira e vamos tentar olhar com olhos de estudante de psicologia, mesmo que meu outro olhar, o de simples mortal leiga, não tenha gostado nada do que viu.

O documentário mergulha em temas como red pill (sim, aquela do Matrix), papéis de gênero, masculinidade e outras coisas que para mim não fazem sentido nenhum. É como entrar em um universo paralelo onde um grupo discute “o que é ser homem” com a solenidade de quem está redigindo a Constituição do próprio ego.

E eu ali, assistindo, tentando entender, tentando não rir daqueles absurdos que estava ouvindo.

Sou muito a favor de podcasts, transmissões ao vivo, influenciadores, acho que até podem ser instrutivos e divertidos.... A questão é que acho que algumas pessoas têm exagerado um pouco na dose e passa ser uma espécie de coquetel meio tóxico, meio inflamável, sabe.

Aí, não pude deixar de pensar: esse universo conversa com o universo das deficiências? Pior que acho que sim. E não só conversa, às vezes grita, pode sair rebaixamento, xingamento e sei lá mais o que... Porque machosfera fere. Pode ferir mulher, gay, idoso, pessoas com deficiência e outras camadas. No documentário o foco parece se mais mulheres mesmo, mas deu para ver que o alcance poderia ser maior. E o mais assustador (mais sinceramente não me surpreendeu muito), que tem gente que não só aceita, mas compactua, reproduz, aplaude. E não é só homem não tá, mulheres, jovens...meu Deus do céu.

Saí do documentário com a sensação de que a tal machosfera não é uma esfera, mas um eco. Um eco que se repete, se amplifica e, quando encontra terreno fértil, vira crença. E eu, do lado de fora, sigo me perguntando se eles percebem que dá para ser homem sem tudo isso.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Psicologia das… necessidades especiais?

 No dia 17 de abril de 2026, aqui em Brasília mesmo, ouvi algo que me chamou muita atenção: psicologia das necessidades especiais. Achei tão engraçado. Não engraçado de deboche, mas de surpresa e curiosidade, pois nunca tinha ouvido falar em uma disciplina dessa, e olha que eu faço psicologia 😉

E fui pensar.... bater cabeça mesmo...pesquisar, pesquiso primeiro na minha cabeça, (como se fosse uma enciclopédia, mas é só achismo mesmo 😅) e depois na internet. E, cheguei à seguinte conclusão totalmente passível de estar errada, mas é minha, então vai assim mesmo: essa psicologia das necessidades especiais parece um pouco com ACP (Abordagem Centrada na Pessoa), que aliás todas as abordagens deveriam ser centrada na pessoa, mas aí já estou aloprando demais 😂

O fato é que, do que jeito que eu ouvi, as duas coisas pareciam se abraçar, se complementar, pelo menos na minha cabeça de estudante que ainda está tentando entender onde cada teoria se encaixa. Não sou uma profunda conhecedora de nenhuma abordagem da psicologia, até porque isso leva tempo e nem formada eu sou ainda, mas sinto que ambas tem esse perfume de humanismo, de olhar o sujeito para além do seu diagnóstico. E, futucando um pouco mais aqui e ali, as duas são compatíveis no sentido de defenderem o olhar para o ser humano em sua totalidade.

Sou impressionável para algumas coisas. Sou sensível e emotiva, dessas que se comovem com palavras, ideias e, às vezes, pessoas (mas esse segundo não quero falar agora, pode ser em outro capítulo talvez😉). O nome Psicologia das Necessidades Especiais me chamou particularmente a atenção porque, rebobinando a fita, lá em 1990, “necessidades especiais” era como se referiram a uma pessoa com deficiência, se usava portador de necessidades especiais (que bom que mudou, ufa!). Eu, por exemplo, hoje em dia o que eu porto no máximo um sorriso, quando estou de bom humor, no rosto e minha necessidade (essa sim, muito especial) é ser respeitada.

E aí, fiquei pensando: se isso era o nome de uma disciplina, que necessidade especiais seriam essas? Porque hoje só consigo pensar nas necessidades que qualquer pessoa possa ter, tendo uma deficiência ou não. Claro que, tendo uma circunstância diferenciada de uma pessoa sem deficiência, há algumas necessidades a mais que outras, mas, não sei se podemos classificar como especiais não, para mim são necessidades básicas.  

Talvez eu deva pesquisar mais, saber com exatidão o que é ou era, essa psicologia ai que ouvi e me deixou mais curiosa do que já sou 😉

 

 

sábado, 18 de abril de 2026

Crushes...

Christmas crush, easter crush, birthday crush…. I like these titles, it´s funny, all dough I prefer one at the time or the same in all the festivities😉
I had a few crushes before and hope I have a few more in my life, because there's nothing like those 
butterflies in the stomach to remind us that we're still alive, or at least functioning It’s exciting and a 
little bit scary at the same time, especially in my reality. 
Que chique, escrevendo em inglês só pra dar aquele charme internacional ao relato! 😄

Pois é... confesso que “crush” soa mais bonito que “paixonite”. Embora já tenham me dito que Crush
era o nome de um refrigerante lá pelos anos 70/80. Fazer o quê. Não tenho crush em refrigerante, 
só em pessoas mesmo, tá? Só para deixar claro, antes que venham com alguma piadinha.
O máximo que posso sentir por uma bebida é sede.😂
Bom, a verdade é que relacionamentos ou até ter um crush é tão excitante, tão bonito né...até parece que a gente ganha asas e sai voando... o X da questão é quando essas asas vêm sem manual de
instruções e o pouso não é garantido, em alguns casos, esses voos não precisam ser até o chão né.... 
Calma, eu explico! Nem todo mundo encara de peito aberto relacionar-se com alguém 
que foge do padrão, né? Demorei para aceitar que, às vezes, o maior desafio não era conquistar o crush, 
mas sobreviver ao julgamento alheio. Demorei para aceitar e entender a ideia do que poderia enfrentar, 
por assim dizer. Mas não dava para inventar um método de rejeição gentil? Só para evitar feridas 
profundas...😂
Já escrevi e falei sobre isso algumas vezes, acho, com outros títulos, outras palavras e outros enredos. 
O sentimento, porém, segue igual: cansaço misturado com frustração, mas sempre com aquela 
pitada (generosa) de esperança. Amante dos amores e dos crushes, mesmo que o universo insista 
em me presentear com algumas paixões não correspondidas que, convenhamos, são um clássico 
da vida moderna. 
Uma história feliz por favor? Por exemplo, foi um texto que, digamos, foi um crush que deu 
certo por um instante até virar só mais um episódio da minha série de idealizações românticas. Foi
também minha relação com idealizações românticas e tal.😏
Certa vez declarei numa rede social que, se aquilo que ouvi realmente tivesse abalado minha autoestima, 
estaria perdida. É claro que no primeiro momento, claro que aquilo me afetou, afinal sou daquelas 
que demonstra afeto (quando gosto falo mesmo, acho que até demais....paraaaaaaaaaaaaaaaaamenina!) 
em volumes impróprios para menores😂, mas chega uma hora que a gente cansa. Cansa de justificar-se, 
de explicar-se, de provar que merece ser vista além do óbvio. Cansa de lidar com gente que acha que 
limitação é incapacidade, diferença é desinteresse, humanidade é fragilidade. 
E aí, nesse cansaço, nasce uma força estranha. Uma força que diz: “Eu continuo tendo crushes, sim. 
Continuo me apaixonando, sim. Continuo voando, sim”. Às vezes caímos em ciladas emocionais...
não tem bula que explique né...  
Porque no fim das contas, crush é isso: um voo curto, um friozinho na barriga, um sorriso besta 
no meio da rua. Mas também é um lembrete de que eu posso, e devo, gostar de alguém sem me diminuir
para caber no olhar de ninguém.
E se não der certo? Sem crise. Reajusto as asas, sacudo a poeira emocional, tomo um shot de coragem…
e sigo. Mesmo que possa demorar um pouco 😉 Porque a vida é longa, os feriados são muitos, 
e eu ainda tenho vários crushes pra viver...espero! 😉
 


quinta-feira, 16 de abril de 2026

A religião e eu

Existem assuntos que, se a gente pudesse, deixaria guardados numa caixinha com aviso de “abrir por sua conta e risco”. Política, sexualidade, futebol e religião, esse quarteto que, dependendo da companhia, vira tempestade em copo d’água ou copo voando pela sala. Pois bem, hoje resolvi abrir a tal caixinha. Prometo que sem intenção de doutrinar ninguém; no máximo, doutrinar meus próprios pensamentos, que já escapam pelos poros há anos.😂

Mas tenho plena, ou não tão plena assim, consciência que falar de religião é um dos temas complexos e mais polêmicos que possa existir então tentarei abordar com um pouco mais de suavidade embora não garanta muito a repercussão, se tiver alguma 😉

Minha relação com religião sempre foi uma espécie de pergunta lançada ao vento: Alguém me ouve? Ou...algo? Na verdade, sempre, ou quase sempre, senti uma força ou uma energia que não consigo explicar nem se quisesse. Mas religião, formalmente falando, nunca foi exatamente meu endereço fixo.

Fui batizada na igreja católica com direito a padrinhos, vela, roupinha bonitinha, tudo como manda o figurino. Cresci indo pouco, bem pouco pelo que me lembro, à igreja, às vezes acompanhando minha vó aos domingos (o que mais gostava era passar um tempo com ela) e já acompanhei outras pessoas também, não só em igrejas católicas, sempre com respeito, curiosidade e um pezinho atrás, porque algumas experiências... digamos que não foram das mais acolhedoras.

E é aí que a conversa fica delicada. Palavras ferem. E eu já saí ferida algumas vezes e, acredito que não tenha sido só eu. Não por Deus, não por fé, mas por gente. Gente que, por algum motivo, achou que religião era lente para enxergar minha deficiência. Ou pior: para explicá-la. Como se a ausência de religião somada à presença de uma deficiência fosse uma equação que dissesse algo sobre mim. Dá para entender o incômodo?

Respeito a religião de cada um, a fé de cada um. Sei que para muita gente a religião é abrigo, é colo, é bússola em dias nublados. Eu só encontrei meus abrigos em outros lugares, na arte (principalmente na de escrever 😊), em algumas pessoas, no silêncio, às vezes até no caos. E tudo bem. Cada um se agarra ao que faz sentido.  

O que não faz sentido é usar fé como arma, diagnóstico ou julgamento. Por isso, decidi não me forçar a nada que não me acolha. A espiritualidade, essa sim, continua aqui comigo, do meu jeito torto, livre, meio bagunçado. Talvez seja isso: minha religião é essa conversa interna que tenho com o mundo, com o invisível, comigo mesma.

No fim das contas, sigo acreditando em algo, mesmo que eu não saiba nomear. E sigo acreditando nas pessoas, apesar de algumas tropeçadas. Porque, no fundo, a gente só quer isso: ser visto sem rótulos, sem explicações mágicas, sem teorias mirabolantes. Só visto. E talvez, só talvez, isso já seja uma forma de fé.

terça-feira, 14 de abril de 2026

Fome de Vida (e Outras Indigestões)

Tenho fome de vida... Daquela vida suculenta, bem temperada, servida em porções generosas e sobremesa incluída. Mas a verdade é que às ela vem temperada com umas pimentas que ninguém pediu. Arde, incomoda, dá vontade de reclamar com o gerente.  Mas não desisto não, mesmo que ela não tenha sido muito gentil comigo... Mesmo que pessoas não tenham sido gentis...

Mas a vida me deu e tem dado material para trabalhar. E olha que material não me falta...dá só uma olhada nos que vem a seguir:

Outro dia, sem aviso prévio, porque memórias inconvenientes nunca batem na porta, estive pensando, não sei exatamente por que, nos episódios de bullying que me vieram a mente há um tempo. Minhas gavetas internas se abriram como quem diz: “surpresa, voltei!”, e de lá saíram de dentro duas lembranças tão fortes quanto uma bolada de queimada no rosto... ambas da minha versão ensino fundamental. Por mais que aquela versão ainda habite em mim, como tudo ao longo do tempo muda e evolui, também passei por essa transformação, hoje já um pouco de cabelos grisalho e com machucados e cirurgias, mas confesso que ter de volta tais lembranças já consigo encontrar outas reações dentro de mim.

Percebi que hoje eu reajo diferente. Não porque ficou leve (trauma não vira pluma) mas porque eu virei outra. Cresci, mudei, evoluí, descasquei umas camadas, coloquei outras. A versão fundamental ainda existe, mas agora ela divide espaço com alguém que sabe olhar para trás sem se perder lá.

Não se engane, não foi legal na época e com certeza não é agora. Não estava preparada para sua volta, e definitivamente não estava na minha programação do dia. Mas já que apareceram, resolvi não expulsá-las. Quem sabe não viram material criativo? Vai que rendem uma crônica (Aliás, já renderam: o texto “A gangue do deboche”. Obrigada, memórias inconvenientes, pela colaboração involuntária.)

Hum... E aí, no meio desse revival inesperado, me peguei pensando nas temidas, para mim pelo menos, 3ª e 5ª série. Temida por alguns. Ou só por mim. Talvez só por mim mesmo, porque cada um sabe onde o calo apertou e onde o tênis escolar machucou.

E, claro, como toda boa memória inconveniente, ela trouxe companhia: A 3ª série trouxe o isolamento dos colegas. Se fosse hoje, talvez eu até agradeceria a distância, só não precisava ser com tanta crueldade. Dividiram a sala para “não pegar” (pegar o quê? A babaquice deles?). Na educação física, ninguém me escolhia para nada. E alguns professores achavam que me dar tarefas “fáceis” era uma forma de… sei lá… não ter trabalho? Já a 5ª série trouxe os olhos verdes. Eram verdes mesmo? Ou eu só estava prestando atenção demais neles? (Tive uma fase de desenhar olhos, então pode ter sido isso.) Teve outras coisas também, mas a memória resolveu focar no que era mais cinematográfico.

A verdade é que a escola ficou para trás, e eu também fiquei bem feliz de deixá-la lá, quietinha no passado, sem reencontros (embora tenha tido um inesperado alguns anos atrás), sem grupos de WhatsApp, sem “vamos marcar”?.

Não tive mais contato com ninguém daquela época. E, sinceramente, talvez seja por isso que hoje eu tenha tolerância zero para comportamento nível 5ª série. Um pouquinho eu aguento, vai, ninguém é de ferro. Mas exagerou, eu já começo a ouvir o barulho da bolada vindo em câmera lenta.

Hoje, modéstia à parte, me considero alguém que consegue revisitar as gavetas sem desmoronar (muito, pelo menos😉). Alguém que, mesmo com cicatrizes, ainda tem fome de vida. E fome grande.

                                                           

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Palavras em minha vida – quase uma sopa de letrinhas

As palavras nem sempre foram minha amigas íntimas, mas sempre estiveram por lá, como em uma prateleira de loja, para que pudesse escolher e pegar quando eu estivesse pronta. Mas aí é que está: quando ficamos prontos? (Como se alguém algum dia ficasse pronta para qualquer coisa, a vida não tem manual não).

Já tive fase de papel de cartas, moedas, canetas de quase todas as cores (estas ainda me seduzem, confesso😉), outras coisas que nem lembro mais. Mas palavras nunca foram fase, sempre estiveram presentes, constantes e teimosas. Tipo sopa de letrinhas.

Sabe aquela música, “Palavras ao Vento”, da Cássia Eller? Então, só que nesse caso a música da senhorita Cássia me parece mais romântica, tanto que já foi até tema de casais de novela e as minhas palavras estão mais para “fazer barulho” ... não sei, nunca foram tão glamurosas ou cinematográficas assim, acho 😊 Se fossem personagem de novela, seriam figurantes que passam ao fundo carregando caixas, tropeçam e ainda derrubam o cenário. E tudo bem. Acho até simpático.

O curioso é que as palavras me encontram de um jeito único, muito particular, digamos. Às vezes chegam inteiras, prontas para uso, como se tivesse passado a manhã toda ensaiando para aparecer. Outras vezes vêm pela metade, tímidas, como se tivessem esquecido o próprio nome. E quando isso acontece, eu invento. Não invento do nada, não sou tão ousada assim. Invento a partir do que lembro, do que sinto, do que quase sei. É como se ao invés de procurar uma agulha, procurar uma palavra no palheiro.

Acredito que da família seja a única com a relação complicada com as palavras. Nunca fui muito fã de leitura, embora tenha alguns livros que vez ou outra me agradavam ler (sim, de vez em quando eu leio 😉). Chega a ser meio irônico gostar de escrever sendo que a leitura nem sempre me é aprazível, mas é assim e nem sempre consigo entender bem o porquê.

Dizem que para quem gosta de escrever tem que ter o hábito da leitura. Eu não tenho, mas isso não me impediu que continuar escrevendo. Todos os dias me deparo com a aparente dificuldade que tenho nesse aspecto da minha vida, especialmente quando me sento para escrever algo, mas as palavras que saem de mim, da minha cabeça (que mais parece um gaveteiro ambulante às vezes), me encontram de um jeito muito particular.

Como diz na página inicial do meu blog: Meu portal de desabafos, superações (não exemplo de superação não ta, não gosto que se refiram a mim desse jeito), histórias e desmistificações. Uma espécie de diário virtual às vezes, a cada obstáculo que ultrapasso é mais um dia em que sei que vou conseguir superar minhas dificuldades. (superar as dificuldades causadas pela deficiência, como consequência, não é superar deficiência...presta atenção galera!)

No fundo, acho que as palavras sempre souberam que eu voltaria para buscá‑las. Mesmo quando eu fingia que não precisava delas.

Elas me esperam. Eu demoro. E, no fim, a gente sempre se encontra, do nosso jeito meio desajeitado, meio poético, meio irônico às vezes, mas, para mim, sempre divertido.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

SOS...

 Terça feira, dia 7 de abril de 2026, enquanto assistia a um filme denso num cinema aqui de Brasília, uma frase me atravessou como uma flecha: tem gente que gosta de flertar com o perigo. Acredito que não seja intencionalmente, ou assim espero, mas como não sou psicóloga, pelo menos não formada ainda, o que me peguei pensando me intrigou bastante e, por lá ficou.

Claro que o filme nem era exatamente sobre perigo, é sobre outra coisa (embora acredito que haja uma relação entre perigo e o que propõe o filme) mas, mesmo assim...a temática do filme em questão está relacionada a crimes de ódio, para dizer o mínimo. Também tenho a dizer sobre crimes de ódio mas hoje, aliás terça, o que ficou em minha mente foi o perigo e porque algumas pessoas procuram por ele.

E, como acontece com pensamentos que chegam assim, abruptos, quase insolentes, ele permaneceu comigo desde então. Me acompanhou até a saída do cinema e seguiu no trajeto de volta para casa. E quanto mais tentava ignorá-lo, mais ele se expandia, como se tivesse encontrado ali um terreno fértil.

Lembrei-me daquela frase que o Simba, do filme Rei Leão, de 1994, disse: eu rio da cara do perigo. Depois, a imagem da personagem da psiquiatra Drª Quinzel deslizando lentamente para dentro do caos que era o Coringa, se tornando Arlequina, ao se apaixonar por seu paciente (não porque queria o mal, mas porque o perigo, para ela, tinha um sorriso sedutor demais) no universo dos quadrinhos.

Fiquei com isso na cabeça... Por que o perigo é tão sedutor? E por que existem pessoas que flertam com ele? E aí a pergunta se impôs: se o perigo fosse uma pessoa, como seria?

Talvez tivesse olhos que brilham mais do que deveriam, daqueles que fazem você esquecer por um instante que luz demais também cega. Talvez falasse baixo, com uma calma que desarma. Talvez soubesse exatamente quando se aproximar, nunca cedo demais, nunca tarde demais. O tipo de presença que faz o coração acelerar, mas você não sabe se é de medo ou de fascínio.

O perigo, se fosse gente, provavelmente teria esse talento estranho de fazer você se sentir viva. Não porque oferece segurança, mas porque te coloca na beira do abismo e sussurra: olha como o mundo é grande daqui de cima.

E por que algumas pessoas flertam com ele?

Talvez porque o perigo promete aquilo que o cotidiano raramente entrega: intensidade. Talvez porque, no fundo, exista uma curiosidade quase primitiva de tocar o fogo só para ver se queima mesmo. Ou porque algumas almas se acostumaram tanto ao caos que o silêncio as assusta mais do que o risco.

Ou, quem sabe, porque o perigo, assim como certos personagens de cinema, sabe exatamente como entrar na mente de alguém e ficar lá, rondando, provocando, perguntando.

E, saindo do cinema naquela noite, percebi que o perigo não é apenas uma força externa. Às vezes, ele é uma pergunta. Uma inquietação. Uma sombra que se move dentro da gente.

E talvez seja por isso que ele seduz tanto. Porque, no fundo, ele nos obriga a olhar para partes de nós que preferimos manter escondidas.

Foi aí então que o pensamento deu outra guinada, comecei a pensar nos perigos relacionados à deficiência. Quando penso nos perigos relacionados à deficiência, percebo que não se trata apenas de obstáculos físicos ou barreiras arquitetônicas. O perigo também pode surgir das atitudes, do olhar alheio que, muitas vezes, subestima ou invisibiliza. Existe um risco silencioso de ser reduzido a um rótulo, de perder nuances e sonhos porque o mundo insiste em enxergar apenas uma parte de quem se é. Além disso, o perigo pode estar no cotidiano: desde a falta de acessibilidade até o medo de não ser compreendido ou protegido em situações de emergência. Para quem vive com deficiência, o perigo frequentemente se apresenta disfarçado de indiferença ou descaso, tornando a vida uma constante negociação entre o desejo de autonomia e a necessidade de segurança.

Tenho uma deficiência física e isso automaticamente, ou não, torna o mundo perigoso para mim. Obstáculos, dúvidas (dos outros e minhas), o querer e realmente poder, porque é muito bonito o ditado: querer é poder mas, hoje observo que nem sempre é assim.

E talvez seja por isso que aquela frase no cinema me atravessou tanto. Porque, no fundo, o perigo não é apenas aquilo que ameaça. Às vezes, ele é aquilo que revela. Aquilo que expõe. Aquilo que nos obriga a admitir que viver, para algumas pessoas, é um ato de coragem diária.

E, naquela terça-feira, percebi que o perigo não estava só na tela. Ele estava comigo. E eu, de algum modo, estava tentando entendê-lo.

terça-feira, 7 de abril de 2026

Um bicho chamado....

Inteligência emocional.... será que tenho esse bicho ai? Olha, se tiver, ele vive solto, sem coleira, sem guia, sem horário para aparecer. Uma criatura meio arisca, que às vezes me acompanha como um cão fiel e, noutras, some como gato assustado com rojão. Essa inteligência emocional, acredito eu, é uma dessas coisas que a gente passa a vida tentando entender, às vezes acho que tenho sim, outras vezes acho que passou bem longe de mim.

Segundo o pai dos burros, ou seja, o google, ter inteligência emocional envolve alguns fatores que, sinceramente me pergunto em que lugar dentro de mim está... na prática, é mais parecido com montar móvel sem instrução: você acha que está indo bem, até perceber que sobrou um parafuso importante.

Vamos ver então: Quando mais novos, não sei exatamente com qual idade, aprendemos a nomear algumas emoções, né? Isso eu já sei, até parece fácil, mas nem sempre é... ninguém explica como lidar com elas quando crescem junto com a gente e começam a fazer bagunça dentro da cabeça. Tá, nomear eu sei e, como se regula isso? É quase um bicho de sete cabeças na maioria das vezes. Nomeá-las sabemos ou, quase todo mundo sabe. E ainda tem gente que quer mascarar, pode? Acham que sentir-se vulnerável é defeito.

Agora, no mundo da deficiência, inteligência emocional é quase item de sobrevivência. Tipo kit de primeiros socorros, só que para o coração. Ajuda a lidar com certas pessoas que, sinceramente, dá vontade de dar um sacode para ver se acorda. E com algumas situações também né😉Mas respira e não pira (ou tenta) e vai em frente.

O que me dá uma preguiça é, por exemplo, é ver pessoas que se acorram nas suas próprias deficiências como desculpa para tudo, como uma muleta sabe (falo isso com todo respeito do mundo a quem usa muleta de verdade). Ter uma deficiência faz parte da pessoa, claro, ajuda a entender algumas coisas, mas não é justificativa universal. Fica feio, sabe.

No fim, talvez eu tenha essa inteligência emocional aí, sim. Só que ela é meio preguiçosa. Acorda tarde, toma café devagar, pensa demais antes de agir. Mas aparece. Às vezes atrasada, mas aparece. Outras vezes meu filtro social falha, dá pane, mas eu gosto de acreditar que é só a inteligência emocional que perdeu o ônibus e está vindo a pé.

Agora… responsabilidade afetiva. O que será isso, meu Deus do céu? Parece nome de imposto novo, mas não é. É só o básico do básico: cuidar do impacto que a gente causa no outro. Avisar quando não quer, quando não pode, quando não sente. Não deixar ninguém pendurado em expectativa. Ser honesto sem ser cruel. É tipo inteligência emocional aplicada ao outro, não só a nós mesmos.

No fim, talvez tudo isso, inteligência emocional, responsabilidade afetiva, filtro social, seja só um grande quebra-cabeça que a gente monta vivendo. E às vezes falta peça, às vezes sobra, às vezes a gente monta errado. Mas segue tentando. O bom é não desistir, por mais difícil que possa parecer.

Porque, no fundo, o importante é que esse tal bicho aparece. Mesmo que atrasado.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Parque da Jú

 Olha que chique, descobri que havia um parque de diversões dentro de mim. Não daqueles com filas intermináveis e ingressos caros, mas um parque vitalício, carimbado no nascimento, onde ninguém pode me expulsar😊. Um espaço secreto, íntimo, em que as atrações mudam conforme o humor do dia.

Às vezes, a mente vira uma montanha-russa: sobe devagar, despenca derepente, dá voltas inesperadas. O coração grita como quem está no barco pirata (barco viking, meu favorito), balançando entre o medo e a adrenalina. E, claro, não faltam os carrinhos bate-bate, só que aqui eu adapto, tentando não me chocar tanto, equilibrando para não sair com hematomas emocionais e, (alguns físicos também😉).

É engraçado como, mesmo sendo invisível, esse parque é o cenário dos meus dias. Cada brinquedo representa um desafio, uma alegria, uma história diferente. Tem dia que só quero passear pela calmaria do carrossel, outros eu encaro a fila da montanha-russa com coragem renovada.

Mas não pense que é só chegar e entrar. No meu parque, não basta pagar o ingresso. É como naquela música da Marisa Monte, o “infinito particular”: só quem eu deixo atravessa os portões. Porque esse espaço é íntimo, é meu, e nele cada atração revela um pedaço da alma.

Entre risos e vertigens, sigo descobrindo que viver é brincadeira séria nesse parque invisível. Um parque que, apesar dos sustos, insiste em me lembrar que a vida é feita de altos, baixos e surpresas, e que o espetáculo nunca fecha as portas.

E as outras atrações? Um carrossel, roda gigante, a casa dos espelhos... Esta última é a mais desafiadora. Nela, não vejo apenas reflexos: vejo cicatrizes, marcas novas, inseguranças que surgem como brinquedos recém-instalados. É um labirinto de imagens onde meu equilíbrio tenta se equilibrar, para não criar novos machucados e nem incômodos.

Talvez não dê para explicar direito, mas é assim que caminho: entre o riso e o susto, entre o reflexo e a vertigem, aprendendo que meu parque de diversões é também meu mapa da vida. Bom, atualmente, convivendo com minhas singularidades, percebo que esse parque adiciona todos os dias uma emoção nova, inseguranças novas.

Se você leu até aqui, talvez também tenha reconhecido algum brinquedo desse parque dentro de si. Quem sabe, no fim das contas, todo mundo carrega um em silêncio, com atrações únicas, esperando a coragem de viver cada experiência. E é esse convite para brincar, sentir e se conhecer que deixo aqui: descubra seu parque, valorize seu ingresso, e aproveite o espetáculo diário de ser quem se é.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Qual será a próxima história?

 Hum... o que escrever?😶 Ou como dizia no filme Christopher Robin: “that to do..what to do...(o que fazer...)  Essa pergunta me acompanha como uma sombra leve, às vezes quase invisível, mas sempre presente. A inspiração não chega como nos filmes, com trilha sonora e iluminação perfeita. Ela é mais como uma brisa: ora suave, ora imperceptível, mas sempre ali, se eu parar para sentir. Às vezes um roteiro ajuda... Se bem que, para os vídeos (pouca coisa) que fiz no Instagram, nenhum teve roteiro: só saí falando o que queria falar e pronto. Claro que, no caso de vídeos, tem a parte da edição e tudo mais que precisa para postar um vídeo...

Nesse domingo, dia 29 de março, assisti a uma peça que acabou me trazendo algumas sensações que confesso nunca ter pensado antes e, para quem gosta de escrever como eu, uma aspirante a escritora que aparentemente mora dentro de mim, já começou a “sonhar acordada”. E se... Pera aí, parem as máquinas e rebobina a fita...

Lembram do monólogo “fragmentos de mim”? Pois, tinha 23 anos quando escrevi e apresentei. Agora, aos 40, não sei o que colocaria (até porque não sou escritora e naquela época tinha meu professor para me guiar). Enfim...bola para frente que atras vem gente! Hoje, aos 40 anos, percebo que os fragmentos mudaram de lugar. Alguns se perderam, outros se transformaram, e muitos eu finalmente consegui deixar para trás. Não porque deixaram de existir, mas porque já não me serviam mais. As coisas que me incomodavam antes, já não me incomodam tanto. Não vou tapar o sol com a peneira, é claro mas acredito que depois de um tempo e de muitooooooooooooooooooo pensar e repensar em algumas coisas e, claro um pequeno help aqui e outro acolá, fui percebendo que os incômodos até podem existir ainda um pouco mas mudaram de lugar, foram para outras caixas, outras tirei o pó e vi que já não cabem nas caixas que os colocava mais e finalmente consegui me desapegar (espero😂)...Mas é um processo né e, dificilmente esse processo é tranquilo viu. Na maioria das vezes é doído e costuma deixar marcas que ninguém vê.

Uns 16 anos depois, já formada e agora na luta para terminar a segunda graduação, como recomeçaria esse monologo? Hum... O que escrevi lá em 200 e bolinha não deixaram de ser verdade, em partes...Algumas se transformaram, evoluíram...assim como eu.

Vejamos e vamos analisar o que escrevi na época... O desafio de superar limites permanece tão verdadeiro quanto era no passado. Ainda hoje, é um processo que se revela difícil e, em muitos momentos, exaustivo. Chato para caramba, não vou mascarar! Hoje, assim como escrevi na época, sei mais do que nunca que é a mais pura verdade! O resto do que escrevi lá atrás ficaram lá...revisito de vez em quando mas acho que seria mais sábio se ficassem por lá mesmo. Até por que já penso de outra maneira o que já foi escrito, evoluiu.

Ressignificar... O palavra bonita! Chega até ser poético mas, não se enganem, por mais bonita que seja, essa danada pode ser bem dolorosa viu. Lembrar ou relembrar algumas coisas que às vezes até preferiríamos esquecer nem sempre é agradável mas em certos momentos acaba se tornando necessário, nem que seja para podermos ir para o próximo capitulo.

Não vou romantizar e nem me vitimizar, até porque não dá, não pode, não é produtivo sabe... A vida não é filme com trilha sonora perfeita. É mais como um ensaio sem roteiro, onde a gente improvisa, erra, repete, corta, edita... e segue.

Então, qual será a próxima história? Não vou continuar de onde parei pois não sou mais a mesma. Continuo Júlia, é fato mas as questões daquela jovem de 23 anos se transformaram em outras. Hoje carrego indagações novas, inquietudes diferentes, desejos, sonhos que ainda não sei nomear e, o que mais que tiver que vir...

Talvez a próxima história não precise ser grandiosa. Talvez baste ser verdadeira. Porque, no fim, escrever, ou viver, é isso: dar voz ao que pulsa dentro, mesmo que seja só um sussurro.

domingo, 29 de março de 2026

Sobre escolhas, títulos e o tal sentido das coisas - A vontade de escrever e o peso que tentam colocar nas histórias

Colecionar títulos (ás vezes sem título mesmo😂) é quase um hobby involuntário, daqueles que vão surgindo na vida sem pedir licença. Cada novo título, por mais simples que pareça, encontra espaço na minha história e acaba por refletir um pedaço do que sou. Não se trata de reconhecimento oficial, mas sim de pequenas marcas que vou acumulando, transformando em textos, trocando ideias e, muitas vezes, revivendo memórias. Tem gente que coleciona moedas, figurinhas, livros… eu coleciono (estou colecionando) títulos. Não diplomas, títulos mesmo. Aqueles que a gente inventa, se apega, transforma em trabalho, palestra, blog, artigo e, quando vê, já viraram quase uma identidade paralela.

O meu preferido? No limite do equilíbrio.

Ah… esse aí eu guardo no peito como quem guarda um bilhete antigo. E pensar que nasceu lá na 5ª série, num meio-pesadelo que virou frase, que virou válvula de escape, que virou blog. Quem diria!

E aqui estou eu de novo, mexendo nesse título como quem mexe em cicatriz antiga: com cuidado, mas com carinho.

Sempre quis escrever crônicas. Daquelas que misturam riso com reflexão, que contam a vida sem precisar transformá-la em drama épico. Porque, convenhamos, quando se tem uma deficiência, parece que o mundo inteiro espera que sua história venha com trilha sonora triste e a frase “exemplo de superação” colada na testa.

E eu? Eu só queria contar minhas coisas. Do meu jeito. Sem pesar, sem florear, sem transformar cada obstáculo em montanha do Himalaia.

Vou contar para vocês a sagas dos títulos e, como cada um virou um pedacinho de mim: Quando fui defender minha primeira monografia, lá em 2009, queria falar de inclusão escolar. Pesquisei, pensei, repensei… até que minha orientadora (obrigada, Kátia!) sugeriu olhar para a inclusão a partir da minha própria vivência. E assim nasceu: Inclusão – No limite do equilíbrio.

A primeira vez que usei “meu” título oficialmente. Um marco.

Mas antes disso já tinha escrito sobre teatro e deficiência, dois trabalhos, inclusive, porque estudante que é estudante sempre tem mais de uma entrega na mesma semana. E foram eles: O fazer teatral para pessoas com deficiência. (era para ser: o fazer teatral de acordo com as possibilidades de cada um, mas ficou muito grande. Os dois trabalhos foram com o mesmo título mas para matérias diferentes.

Depois veio a psicologia, e com ela a vontade de continuar o que já tinha começado. No primeiro estágio, inventei de falar sobre conscientização. Resultado?: Inclusão: Os Efeitos da Conscientização sobre o Comportamento de Universitários com Relação ao Bullying e, na mesma semana: Inclusão: O efeito do bullying na vida adulta

Um deles virou painel. Olha eu aí, toda exibida no corredor da faculdade😄

Em 2018, escrevi com uma professora (que depois virou orientadora) um trabalho sobre religião, identidade e mentalidade fundamentalista no Brasil: O “olhar” de psicólogos/as. A ideia inicial era falar sobre fundamentalismo religioso como forma de preconceito (como certas crenças ainda são usadas para justificar preconceitos contra pessoas com deficiência). Sim, isso existe. Sim, em pleno século XXI. Sim, dá vontade de revirar os olhos.

E em 2023, publiquei no CEUB o artigo que tanto gosto: No limite do equilíbrio: desconstrução do capacitismo. O título voltou, firme e forte. Teimoso, igual a mim 😊

Eu achava que monografia era uma matéria só. Ingênua. Virou projeto no primeiro semestre de 2025, monografia no segundo semestre, com o título: Vivendo em uma Sociedade Capacitista: Barreiras para a Inclusão.

E agora, já que ela não foi publicada, estou aqui planejando transformá-la em artigo. De novo. Sim, mais um.

Mas dessa vez quero outro título, sem perder a essência, claro. E também uma versão para o blog, bem mais curtinha, porque ninguém merece ler monografia no café da manhã.

E, no final das contas, acho que minha insistência com títulos é menos sobre palavras bonitas e mais sobre dar sentido ao caminho. Cada título é uma fase, uma descoberta, um pedaço da minha história que eu recuso transformar em drama, mas também não escondo.

E se tudo isso começou com uma frase escrita na 5ª série, talvez seja porque algumas coisas já nascem com destino certo (será que acredito em destino, gente!), mesmo que a gente só perceba muitos anos depois.

Agora sigo aqui, lapidando o próximo título.

Porque, no limite do equilíbrio, a gente sempre encontra um jeito de continuar escrevendo.

quinta-feira, 26 de março de 2026

Uma jornada pessoal de autodescoberta, convivência e expressão

 Nem tudo gira em torno da deficiência, mas ela faz parte de mim, veio para ficar. É uma presença constante, mas não define completamente quem sou.

Vejamos... Criei o blog em 2010, tinha 24 anos, então tive tempo de sobra para eu perceber, de novo, que nunca tinha tido um colega com deficiência, um amigo com deficiência. Queria escrever sobre a vida, e a vida, por acaso, incluía uma deficiência, e era apenas um dos aspectos presentes nesse cotidiano. Uma das minhas caraterísticas (morena, meio baixinha 😂, olhos castanhos etc., e com uma deficiência).

Durante minha trajetória escolar, exceto por uma breve passagem pela Hungria, que não era bem uma escola, sempre fui a única com uma circunstância diferenciada, para quem prefere termos mais rebuscados 😊.Gosto de pensar que era apenas eu, tentando acompanhar o ritmo dos outros no meu próprio compasso. Na faculdade, isso se repetiu: era a única aluna com deficiência, carregando não só a mochila, mas também o olhar curioso dos colegas. Não era maldade, ou assim eu esperava. Era novidade, e novidade, às vezes, pesa.

Atualmente, ou não atualmente assim, sabemos que existem vários tipos de deficiência, inclusive aquelas que ninguém vê. As deficiências ocultas sempre existiram, mas só recentemente começaram a aparecer, a se apresentar, dizendo “oi, eu também estou aqui”. Acho isso bonito.

Agora, na segunda faculdade, terminando (tomara que dê tudo certo), encontrei colegas também com deficiência e, foi curioso perceber como isso me trouxe uma sensação de pertencimento que eu nem sabia que estava faltando ou que estava procurando.

O blog nasceu do desejo de desmistificar. De mostrar, quer dizer, com palavras escritas e não só faladas, que posso fazer tudo que qualquer pessoa sem deficiência faz, do meu jeito, claro. Cada um tem o seu, e o meu jeito só tem algumas curvas diferentes no caminho.

E, ao longo dos anos ele, esse blog, se tornou uma espécie de diário virtual, onde a deficiência não é a única protagonista e sim uma pessoa que tem uma deficiência, mas que a deficiência não a tem... Veem a diferença?

Às vezes me exponho um pouco demais, mas nada sério ou comprometedor. Apenas a vida acontecendo. Já pensei em transformar essas crônicas em um livro, mas fica a dúvida: como seria, quais seriam os capítulos, por onde começar?

O mais difícil já tenho: minha voz. O resto é questão de organização e de deixar espaço para o que ainda está por vir😉