De vez em quando, alguém me olha com aquela certeza tranquila de quem acabou de descobrir uma verdade universal e diz que tudo parece fácil para mim. Mesmo quando está difícil. Nessas horas, fico sem saber se rio, se explico ou se deixo a pessoa acreditar nessa ficção confortável, afinal, cada um se agarra ao que precisa para dormir melhor. Mas sejamos francos: fácil, fácil mesmo, não é para ninguém. A vida não vem com manual, tutorial em vídeo ou garantia estendida. E, ainda assim, tem gente que insiste em colecionar tristezas como quem junta figurinhas repetidas.
Eu entendo. Quando o
chão treme, parece que o mundo inteiro resolveu desabar justamente sobre a
nossa cabeça. Procurar o lado bom vira quase um esporte radical, desses que
exigem capacete e assinatura de termo de responsabilidade. Às vezes o tal lado
positivo está tão escondido que parece pegadinha, e das ruins.
Mas, honestamente, já
basta o que dói. Qual o sentido de mergulhar de cabeça no pessimismo? Não sou
exemplo de serenidade, reclamo, resmungo, dramatizo com talento. Sou humana,
afinal das contas, e não um Cyborg. Só aprendi,
talvez por cansaço, que focar só no lado ruim não resolve nada. Só desgasta,
como sapato velho que insiste em machucar o calcanhar.
Machado de Assis, com
sua ironia afiada, já dizia que o mundo é feito de contradições. Não lembro as
palavras exatas, mas lembro da sensação: aquela mistura de lucidez e sarcasmo
que faz a gente rir enquanto engole seco. E confesso que ainda não sei o que
pensar sobre isso. O que sei é que algumas coisas continuam me irritando
profundamente, a hipocrisia, por exemplo, e a intolerância, que anda desfilando
por aí com a naturalidade de quem acha que está sempre certa. Em certos dias,
parece que estamos todos atuando num grande teatro do absurdo, só que ninguém
avisou que estávamos no elenco.
O fato é que o mundo
anda estranho. Valores invertidos, lógicas tortas, gente defendendo o
indefensável com a convicção de quem recita receita de bolo. Vivo, portanto,
num mundo bizarro. E, apesar das tentativas, há coisas que simplesmente não
consigo compreender.
Ainda assim, sigo
tentando. Talvez seja essa teimosia, essa mania de procurar sentido onde não há,
que mantém a gente de pé, mesmo quando tudo parece fora do lugar.
De vez em quando, a
vida nos empurra para encruzilhadas que ninguém pediu. Não são escolhas
cinematográficas, com trilha épica e vento dramático. São decisões ásperas,
chatas, que batem à porta sem marcar horário. Lembro, ou acho que lembro,
porque a memória adora inventar, ou falhar, do dia em que decidi parar de dar
tanta importância ao que dizem de mim. Não foi iluminação espiritual, nem
epifania digna de livro de autoajuda. Foi só cansaço. Cansaço de carregar
olhares, expectativas, comentários. A saúde mental agradeceu, mesmo que alguns
incômodos continuem beliscando, como malas que nunca fecham direito.
O passado… ah, o
passado. Todo mundo adora dizer que ele não define ninguém. É bonito, poético,
quase libertador. Mas tem passado que gruda. Tem lembrança que se comporta como
sombra: silenciosa, mas sempre ali. Traumas, complexos, feridas que fingimos não
doerem mais, tudo isso se acumula como poeira em canto esquecido. E, sem
perceber, reagimos ao presente com reflexos do que já passou.
É aí que entra a
parte difícil: decidir. Decidir olhar para isso. Decidir fazer diferente.
Decidir, às vezes, deixar ir.
Do complexo de
patinho feio ao estranho no ninho, aquele mesmo, com Jack Nicholson, até a
tentativa de construir uma inteligência emocional minimamente funcional, o
caminho é cheio de tropeços. Tentativas e erros, porque acertar sempre seria
pedir demais. Algumas decisões doem, outras só incomodam, mas todas empurram a
gente para frente.
E talvez seja isso:
continuar decidindo. Mesmo quando dá preguiça. Mesmo quando dói. Porque ficar
parado também é uma decisão, e, quase sempre, é a que mais pesa.