sexta-feira, 1 de maio de 2026

A adulta que não deixam ser

Até que sou uma pessoa com paciência e tolerância para algumas coisas, claro. Sempre achei que paciência fosse uma espécie de músculo: quanto mais a gente usa, mais forte fica. Mas, ao que tudo indica, com o passar dos anos ele também sofre desgaste, como joelho de quem subiu muita escada na vida. E eu, que sempre me considerei alguém paciente e tolerante, tenho percebido que algumas coisas andam me tirando do sério com uma facilidade quase olímpica.

E nada tem me irritado mais do que essa mania que o mundo, ou melhor, algumas pessoas, têm de me tratar como criança e, isso, confesso, me irrita mais do que eu gostaria de admitir. Não criança no sentido poético, de quem ainda vê encanto nas coisas. Criança no sentido literal mesmo, de quem não sabe, não pode, não entende... A que precisa que falem por ela às vezes, e de preferência em público principalmente, para aumentar a humilhação (que bad gente).

Eu sei, claro, que para os pais a gente nunca cresce de verdade. É quase uma lei da natureza: filhos permanecem pequenos na memória afetiva, mesmo quando já tem cabelos grisalhos, algumas rugas (será?), já pagam boletos (não é meu caso ainda) e reclamam de dor nas costas. Mas existe um plot twist nessa história que costuma complicar ainda mais essa equação: ser filha atípica.

Pais atípicos, ou seja, pais de filhos com deficiência e, aqui falo com todo cuidado, porque sei que cada família é um universo, parecem viver com uma dúvida permanente estampada no olhar. Cada coisa que faço, cada decisão que tomo, cada passo que dou, vira uma interrogação silenciosa: “É ela… ou é a deficiência?” Como se eu fosse duas pessoas separadas, uma encaixada dentro da outra, e eles nunca soubessem qual das duas está no comando.

E eu fico ali, no meio desse malabarismo identitário, tentando provar que sou adulta. Não a adulta idealizada, perfeita, organizada, com planilhas e manual-de-instruções de maturidade. Mas a adulta que eu posso ser, a adulta possível. A que existe do meu jeito, com minhas possibilidades, meus limites, minhas conquistas, minhas teimosias e meu caos perfeitamente funcional. (pode não ser funcional para os outros, mas para mim é).

Costumo dizer, meio brincando, meio pedindo socorro, que só preciso que me deixem ser adulta do jeito que posso ser. Não é tão complicado assim. Ou talvez seja, para quem ainda insiste em me ver com a idade que eu já não tenho faz tempo.

No fim das contas, acho crescer é isso né: Não apenas aprender a lidar com o mundo, mas ensinar o mundo a lidar com a gente. E, convenhamos, esse trabalho dá muito mais trabalho do que deveria.

 

 

 

                                                                                                                      

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Como é, moça?

 Não sou de polemizar, muito menos de causar nenhum desconforto, mas entre o dia 27 e 29 de abril desse ano, enquanto participava do 3º Congresso Brasileiro Estudos sobre as Pessoas com Deficiência e Demandas Psicossociais (tinha participado só do 1º, em 2024), no formato online, algo me cutucou por dentro. Daqueles cutucões que fazem a gente levantar a sobrancelha e pensar: ué, será que só eu ouvi isso?

Estava lá, caderninho aberto, como sempre faço em cursos online, anotando impressões, frases soltas, ideias que me atravessam. No primeiro dia, ouvi a seguinte pérola: “Esqueçam aquela ideia de que deficiência é sinônimo de limitação”. Não pude interromper, como numa aula mesmo, mas pensei bem alto dentro de mim: Calma, moça… não existe limitação?  Eu convivo com as minhas diariamente. Até converso como elas de vez em quando. Aprendo com elas.

As limitações que me acompanham desde o instante que nasci, hoje percebo que não me limitam, me desafiam. Sei e se não sei aprendo que, se não consigo de um jeito, tento de outro. O que não pode e não deve é transformar limitação em sinônimo de incapacidade. Aí, sim, a gente tropeça no preconceito alheio.

Tenho uma deficiência, mas não é ela que me tem. Isso precisa ficar bem claro, por mais difícil que pareça e mesmo quando o mundo insiste em embaralhar as coisas.

O congresso foi ótimo, abordou temas importantes, dos quais gostei bastante, mas lá estava eu, fiel ao meu caderninho, anotando tudo o que fazia sentido, e o que não fazia também😉Afinal, convivo com minha deficiência desde pequenininha e ela é minha, não no sentido de posse, mas de intimidade. Pois existe uma complexidade em vivenciar a deficiência que que não cabe em slide, mesa-redonda ou discurso empolgado. Que mesmo cheio de gente ao nosso redor, muitas vezes travamos batalhas silenciosas: o sentimento de inadequação que aparece sem ser convidado, a luta diária pelo direito de existir e ocupar espaço, a insistência em não deixar que o mundo nos diminua. É um trabalho que, no fim das contas, fazemos muito mais conosco do que com qualquer outra pessoa. E isso é mais conosco mesmo.

E talvez seja por isso que aquela frase me intrigou tanto. Não porque estivesse errada, mas porque parecia ignorar que, antes de superações e discursos bonitos, existe vida real. E na vida real, limitação existe, sim. O que não existe é desistência.

E o resto do congresso? .... Ah, o resto, deixo para os próximos capítulos. Ou não...Sabe, foram três dias de congresso, mas o que realmente mexeu com minhas estruturas foi isso 😊