domingo, 28 de junho de 2026

Correio (des)elegante

Sempre achei curioso esse negócio de correio elegante. Hoje em dia acho até uma certa graça, mas só depois de alguns pequenos traumas do passado serem ressignificados 😉...frase de efeito é tudo né😊?, bem colocada tem o poder de fazer o coração dar aquela cambalhota, ou tropeçar, dependendo do autor.

Qual é o objetivo do correio elegante?  A ideia é simples, quase infantil: uma espécie de cartinha anônima para quem se gosta, não? Pode ser romântico, fofo, divertido e cheio de charme....um convite para sorrir! Um bilhetinho que chega como quem não quer nada, mas que, no fundo, quer tudo: atenção, reciprocidade, um olhar de canto, um sorriso tímido.

Mas para quem tem alguma deficiência é outros 500, às vezes o correio elegante vira correio (des)elegante. E não por falta de papel colorido ou glitter, é por excesso de absurdo mesmo. E olha que já ouvi cada coisa, e nem sempre por por carta, às vezes é ao vivo mesmo, sem filtro, sem noção ou, então ouvi sem querer....

Porque tem gente que, em vez de mandar um “acho você incrível”, prefere soltar umas pérolas que fazem a gente se perguntar se não caiu de paraquedas num planeta paralelo. Tipo aqueles comentários que chegam embalados em boa intenção, com laço de elogio, mas que, quando você abre, descobre que o conteúdo é puro constrangimento.

É o famoso “nossa, você é tão bonito(a) mesmo assim”. Ou o clássico “eu até ficaria com você, mas…”. Ou ainda o campeão de audiência: “você é uma inspiração”. (Como se viver a própria vida fosse um esporte radical digno de medalha.)

E aí, quando aparece a plaquinha “Correio Elegante”, eu já leio “Correio (Des)elegante”. Reflexo condicionado. Autodefesa emocional. Instinto de sobrevivência. Ou só lembranças que hoje em dia consigo achar graça. Porque, sendo realista, é cada coisa que a gente escuta que às vezes parece que estamos falando com gente de outro planeta, ou que eles acham que nós é que somos extraterrestres.

Não vejo nada de elegante em desmerecer ninguém por ser quem é... isso é tão ultrapassado, tão démodé... Elegante é não transformar a existência do outro em surpresa, superação ou exceção. Elegante é tratar com naturalidade o que é… natural.

Digo isso, mas existem exceções (ainda bem), pessoas que nos enxergam além das nossas deficiências ou apesar delas. Pessoas que entendem que não somos uma coisa só...na verdade somos um pacote completo, cheio de capítulos interessantes😉

Talvez um dia o mundo aprenda a escrever bilhetes que sejam realmente elegantes. Ou que aprendam a falar sem parecer elogio desfaçado, ou simplesmente querer nos conhecer e não ficar com tanto receio assim talvez? 😉Até lá, seguimos rindo, revirando os olhos e colecionando histórias que dariam um livro inteiro, ou pelo menos uma boa crônica.