quinta-feira, 14 de maio de 2026

Como te respondo?

Tem coisa que a gente não engole. Não desce com água, não desce com café, não desce nem com um suspiro fundo que a gente dá quando quer parecer zen, mesmo quando a alma está mais para panela de pressão😂. Sabe aqueles comentários ou perguntas incômodas que ficam atravessados na nossa garganta? Então, às vezes fica ruminando aqui dentro e não sabemos responder, né? (calma, respira e não pira). Como responde isso gente?

Já me disseram que tenho as respostas na ponta da língua. Ah, quem dera fosse assim.... se tivesse, já tinha virado ninja de devolutiva elegante. Acredito que algumas pessoas precisam que devolvam o constrangimento, sabe. Essa é uma arte que ainda não dominei muito bem 😉, até ensaio mentalmente, mas travo na hora H, a língua se aposenta, a mente congela, e o momento passa como ônibus que a gente vê indo embora enquanto ainda está procurando o cartão. Acredito que aos pouquinhos vou sintonizando direitinho. E olha que tem gente que faz isso como uma diva, sem sair do salto e sem perder o tom, não perde a compostura, as estribeiras😊.

Não dizem que a palavra dita, a flexa lançada e uma palmada (ou soco), são coisas que não voltam mais? Então, a questão é que palavras podem ferir mais do que qualquer flexa (nunca levei uma e espero nunca levar😉). Machucam em um lugar que a gente nem sabe como proteger. E, quando se percebe, já passou o momento de responder, se defender, sequer querer revidar, de tão paralisada que pode-se ficar.

Acho que... devolver o constrangimento seja uma habilidade que aos poucos talvez consigamos encontrar, talvez se aprenda devagar, como quem afina um instrumento para tocar bem. Não digo devolver na mesma moeda, até porque acho que nem concordo muito com isso, mas pelo menos certas coisas conseguir não engolir calada.

Enquanto isso, enquanto tento aperfeiçoar essa técnica de devolver sem ferir ninguém no processo (ainda não sei se é possível), de responder sem me perder no caminho, finto com o básico: calma, respira e não pira.

 

 

 

 

 

                                                                                                                      

quarta-feira, 13 de maio de 2026

A polêmica do cordão?

 Que cordão estamos falando? Uma coisa já adianto, não são aquele cordões dourados ou prateados, com pingentes que brilham no sole e servem para enfeitar o peito quando a gente resolve sair de casa mais arrumadinha. É outro tipo de cordão, um mais polêmico talvez. Um que não enfeita: identifica.

Já faz um tempo, me questionaram sobre cordão de identificação para pessoas com deficiência. Perguntaram por que não usava um. Hum... para que preciso me identificar? Vejamos, convivo comigo mesma e com minhas dificuldades há tanto tempo que para que vou identificá-la? Já sei de cor e salteado os estigmas que podem vir junto com qualquer rótulo, sei onde doí, onde aperta, onde incomoda e, sinceramente não estou disposta a lidar com isso mais um vez. Já carreguei olhares tortos, suposições apressadas e aquela compaixão mal calibrada que pesa mais do que ajuda.

Vejam, não sou contra e nem a favor. A inciativa existe e eu entendo, respeito. É opcional...e essa palavra, opcional deveria vir sublinhada, em negrito, talvez até piscando. Sendo assim, cabe a própria pessoa decidir se quer usar ou não, se vê a necessidade. Há quem se sinta mais seguro/a, mais visto/a, mais compreendido/a. E isso é legitimo.

No fim das contas, cada pessoa sabe do seu próprio caminho. Sabe o que precisa, o que dispensa, o que dói, o que protege. Se o cordão ajuda alguém a respirar melhor no mundo, que bom. Mas se não faz sentido para mim, também está tudo certo.

A polêmica do cordão, no fundo, acho que nem é exatamente sobre o cordão, ou talvez seja, não sei. Acredito que seja mais sobre autonomia. Sobre o direito de escolher como existir, como se apresentar, como ser lida. E isso, ah… isso não cabe em nenhum acessório.

Tem outra coisa que esqueci de comentar...está na lei, tem aspectos legais e tudo, porque no Brasil tudo tem artigo, um inciso, uma portaria escondida em algum lugar, mas não me sinto representada por um cordão. O que deveria ajudar, às vezes atrapalha, sabe. Já somos tradados/as diferentes quando sabem que temos alguma deficiência, para mim esses cordões parecem um aviso luminoso (porque tem cordões de várias cores viu): cuidado. Sei que não é essa a intenção, mas é assim que sinto, que estigmatiza mais ainda. E com isso, não quero faltar com respeito a ninguém ta. É só minha opinião no momento. Estou aberta a conversar se quiserem😉.

E já que estamos aqui, vale esclarecer, vamos organizar isso aqui, só para entendermos direitinho o que cada cordão significa:

Cordão Girassol = identifica pessoas com deficiências ocultas ou não aparentes, como surdez, autismo e deficiência intelectual.

Cordão Quebra-Cabeça símbolo internacional para identificar pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). (confesso que não gosto, pois, quebra cabeça é um jogo de achar peças faltando, não de definir pessoas)

Cordão do Infinito = representa a neurodiversidade, como autismo, TDAH e dislexia.

Deve ter outros por ai, não sei não...

Aí, claro, fui pesquisar o porquê das coisas, que normalmente tenho a curiosidade e o ímpeto de fazer, é quase um esporte para mim.

O girassol, que é uma flor que gosto muito, por exemplo, represente a felicidade, positividade, força e crescimento (pesquisei no Google ta😊). Sinceramente não entendo o motivo de acharem que o girassol fosse a melhor opção para usar como cordão para deficiências ocultas, mas acho que deve ter uma explicação, quase tudo tem né?

O quebra cabeça, acho que dispensa comentários, ou não? Qual a opinião de vocês? A minha já expus😉

Infinito, esse símbolo sim, sempre gostei do símbolo. Simboliza as infinitas variedades, as infinitas formas de ser, de pensar, de existir. Se algum dia eu decidir usar um cordão (que não seja daqueles com pingentes), talvez seja esse.(Ou acho um infinito de pingente). Não para me identificar para o mundo, mas para me lembrar, eu mesma, de que sou múltipla, complexa, inteira.

E, no fim, talvez seja isso: cada um escolhe o que faz sentido para si. Cordão nenhum dá conta da nossa história inteira. Ainda bem 😌

 

terça-feira, 12 de maio de 2026

Intervalo...

Ficar fora da faculdade esse semestre foi como abrir uma janela que eu nem lembrava que existia. De repente, entrou um vento novo, desses que bagunçam o cabelo e, de quebra, o apetite. Não o apetite por comida (esse sempre esteve bem servido), mas o de escrever. Escrever mais, escrever sempre, escrever como quem respira. A verdade é que eu nunca parei, mas agora parece que as palavras voltaram a me cutucar com mais insistência.

E, já que a vida me deu esse intervalo, meio forçado, resolvi preencher e fazer alguns, poucos, cursos que me interessam, para alimentar minha cabeça.  Dentre eles, um curso de educação anticapacitista, que começou dia 30 do mês passado e vai até o dia 12. Logo de cara, me jogaram um conceito novo: DEF. Ainda não sei exatamente o que pensar a respeito. Talvez precise mastigar mais um pouco, deixar decantar.

Mas vamos por parte né.... Voltar um pouco a fita... Curso online, nada de professor chamando pelo nome, nada de levantar a mão. Só eu, a tela e meu caderninho fiel, aquele que já ouviu mais pensamentos meus do que muita gente por aí. Fui anotando tudo que me cutucava, tudo que parecia ter potencial para virar texto, porque algumas ideias são assim: chegam tímidas, mas se a gente não anota, elas fogem pela janela.

Logo na primeira aula, a indagação começou... veio a pergunta que ficou martelando: será que todos conhecemos mesmo o termo capacitismo? E educação anticapacitista? A questão é que acho que se fala de capacitismo, essa palavra circula, aparece em debates, em posts, em discursos, mas nem todo muito sabe o que bicho é esse. Tem gente que acha que é MIMIMI....como se nomear uma opressão fosse capricho e não uma necessidade.

E no meio disso tudo, fiquei pensando em mim. No quanto escuto, dentro de mim mesma: sou capaz...E sou mesmo! Claro que nem tudo vai dar para fazer, até porque ninguém é capaz de tudo, mas aprendi e ainda estou aprendendo, que posso fazer muita coisa quando tento, do meu jeito, no meu ritmo, com as ferramentas que tenho.

Depois é que veio esse conceito até para mim, novo: DEF. Pesei, o que é isso?: Claro, fui pesquisar: parece que é usando em contextos culturais e políticos como abreviatura para deficiência.  Ok, confesso que, por mais interessante a proposta, achei meio estranho, mas vou dar uma chance 😉 Nunca nem tinha ouvido (não é porque tenho uma deficiência que sou “obrigada” a saber tudo da realidade que me cerca. Talvez até devesse, acho, mas não é assim que funciona.

Depois.... o que veio? Um tal de letramento anticapacitista. Ai meu deus, o que é isso? Bom, capacitismo vem de dúvida da capacidade né. Então, anticapacitista é o contrário? Algo assim. Mas aí percebi que não é só isso. Atualmente, depois de muito digerir algumas coisas e adquirir, modéstia a parte, alguns conhecimentos, percebemos que alguns “elogios” acabam por não serem exatamente “elogios” e sim ataques capacitistas sutis, disfarçados, tipo: você é bem bonita, mas tem uma deficiência ou você até que é inteligente, mas.... (já me incomodei muito com esses comentários, mas ... K

O mundo evoluiu (em partes) e, precisamos evoluir com ele né? Claro que leva um tempinho para nos adaptar, nos familiarizar e estarmos abertos a novos conhecimentos, aprender a nomear, etc. Compreender que somos mais do que a deficiência...

Na verdade, no fundo, acho que tudo ou quase tudo é mais sobre como falamos as coisas do que o que falamos. Claro que não dá para sair falando por aí tudo que quer...embora às vezes dê vontade (para algumas pessoas também 😊), dá um alívio enorme.

E você, qual a sua relação com o capacitismo?  Porque, se eu pudesse resumir em uma palavra, a palavra de ordem seria DESCONSTRUÇÃO... Algumas pessoas precisam, na minha opinião, desconstruir alguns discursos capacitistas que ainda são cometidos sem intenção...algumas vezes 😉. Outras precisam desconstruir a si mesmas. E eu, bom… sigo desconstruindo e reconstruindo, como quem ajeita uma casa enquanto mora nela.