domingo, 3 de maio de 2026

Os outros (cara aberta?)

 Sempre assinei Júlia Maia. Simples, direto, funcional. Nunca me perguntei muito sobre isso: nome e sobrenome, fim de papo, me acostumei assim. Ficou assim como ficam tantas coisas na vida, parte da decoração que a gente esquece de questionar. Nunca tive vergonha do meu nome e nem nada parecido, só aficou assim porque... sim...

Em março desse ano escrevi sobre os Souza, família da minha mãe. Escrevi sobre não saber como foi quando receberam a notícia da minha deficiência. Mas, percebi que acho que nunca escrevi sobre outra metade, a tal metade que nunca entra em cena, os Maia né? Então, Maia é da família do meu pai, como já devem ter percebido. E talvez não fale muito dele porque sinceramente não tenho nem o que falar.

Não conheço a história, e, pra ser franca, nessas alturas do campeonato, não faço questão de saber. Houve um tempo em que quis mais do que um nome na certidão. Queria presença, queria um gesto, queria algo que justificasse carregar esse sobrenome por aí, desde sempre.

Te vi algumas vezes quando já crescida, já adulta. Não vou mentir: bateu aquela emoção de conhecer “o pai”, mas logo passou. Sabe quando acendem umas red flags? Pois é.

Vivi e cresci sem você. E não vou dourar a pílula: isso já doeu demais. Principalmente naqueles dias de festa, na escola, nas datas que parecem feitas só pra jogar na cara o que falta. Mas, do mesmo jeito que a gente aprende a andar de bicicleta (aprendi depois de adulta😉), aprendi a conviver com esse vazio. Eventualmente, acostumei.

Olhando agora, depois de digerir tudo, e não foi fácil, nem rápido, foi o meu processo, que talvez nem tenha terminado (por isso escrevo 😉 ), hoje percebo: talvez tenha sido melhor assim. Talvez o que faltou foi livramento e não perda.

Minha mãe segurou as pontas. Fez o papel dela e o seu, dobrada de trabalho e de amor. Porque, além da filha pequena, veio uma deficiência de brinde, exigindo mais força, mais cuidado, mais tudo.

Cresci com o Maia no nome, sem a história que deveria acompanhar. Um espaço vazio que aprendi a preencher de outros jeitos: mamãe me deu três pais, meu avô e dois tios incríveis. Depois vieram amigos, terapia, escrita (muitas vezes), humor e coragem. O vazio virou lugar de construção, um terreno fértil.

Sigo construindo, escrevendo (às vezes fantasiando, mas sem sair muito da realidade😊), até porque sempre aparece uma coisa ou outra que preciso colocar no papel antes que vire explosão. Acho que escrever é meu jeito, mesmo que pareça meio torto, de extravasar sem descontar em alguém. É meu jeito de abrir a janela quando o peito aperta.