Não deve ser fácil descobrir uma deficiência. Quer dizer, imagino que não tenha sido. Eu estava lá, claro, mas não lembro de nada, só sei que alguma coisa deve ter acontecido para eu ter vindo assim, digamos, de fábrica. Congênita ou adquirida, pouco importa: o fato é que, em algum momento, alguém percebeu que eu era diferente dos outros. Mais do que eu gostaria.
O difícil mesmo, descobri depois, não foi nascer assim. Foi
crescer assim. Porque crescer é, entre outras coisas, perceber. E eu percebia,
às vezes cedo demais, que outras pessoas da minha idade, e até de idades bem
diferentes, faziam coisas que eu simplesmente não conseguia fazer. Já tentei,
juro que tentei, mas tem coisa que não dá mesmo. E aceitar isso é um processo
que não vem com manual de instruções.
Recentemente,
pensei em minha mãe e em como deve ter sido enfrentar uma nova gestação já
convivendo com uma filha com deficiência. Essa dúvida ficou comigo por dias,
como um objeto frágil que não sei onde apoiar.
Sou a primeira da família a nascer com uma deficiência. Já
contei isso em “Os Souza”. E, até hoje, não faço ideia de como a notícia
repercutiu entre eles. Imagino olhares trocados, silêncios longos, talvez
alguma preocupação disfarçada de força. Mas ninguém nunca me contou, e eu
também nunca perguntei. Aliás, até acho que perguntei, mas ...
O que sei, isso sim, com absoluta certeza, é que conviver
com uma deficiência e me reconhecer além dela foi o que me salvou e tem me
salvado desde então. Depois de algumas questões no meio do processo J. Foi o que me
permitiu, por assim dizer, me “acostumar” a ela. Descobrir o que posso ou não
posso fazer, e principalmente como fazer. Porque depender dos outros para
sempre nunca esteve nos meus planos.
E assim sigo: meio torta, meio teimosa, completamente minha.
De fábrica, sim, mas com muitas peças que fui aprendendo a montar sozinha ao
longo do caminho.