segunda-feira, 16 de março de 2026

Um relato pessoal sobre desafios, descobertas e adaptações

Não deve ser fácil descobrir uma deficiência. Quer dizer, imagino que não tenha sido. Eu estava lá, claro, mas não lembro de nada, só sei que alguma coisa deve ter acontecido para eu ter vindo assim, digamos, de fábrica. Congênita ou adquirida, pouco importa: o fato é que, em algum momento, alguém percebeu que eu era diferente dos outros. Mais do que eu gostaria.

O difícil mesmo, descobri depois, não foi nascer assim. Foi crescer assim. Porque crescer é, entre outras coisas, perceber. E eu percebia, às vezes cedo demais, que outras pessoas da minha idade, e até de idades bem diferentes, faziam coisas que eu simplesmente não conseguia fazer. Já tentei, juro que tentei, mas tem coisa que não dá mesmo. E aceitar isso é um processo que não vem com manual de instruções.

Recentemente, pensei em minha mãe e em como deve ter sido enfrentar uma nova gestação já convivendo com uma filha com deficiência. Essa dúvida ficou comigo por dias, como um objeto frágil que não sei onde apoiar.

Sou a primeira da família a nascer com uma deficiência. Já contei isso em “Os Souza”. E, até hoje, não faço ideia de como a notícia repercutiu entre eles. Imagino olhares trocados, silêncios longos, talvez alguma preocupação disfarçada de força. Mas ninguém nunca me contou, e eu também nunca perguntei. Aliás, até acho que perguntei, mas ...

O que sei, isso sim, com absoluta certeza, é que conviver com uma deficiência e me reconhecer além dela foi o que me salvou e tem me salvado desde então. Depois de algumas questões no meio do processo J. Foi o que me permitiu, por assim dizer, me “acostumar” a ela. Descobrir o que posso ou não posso fazer, e principalmente como fazer. Porque depender dos outros para sempre nunca esteve nos meus planos.

E assim sigo: meio torta, meio teimosa, completamente minha. De fábrica, sim, mas com muitas peças que fui aprendendo a montar sozinha ao longo do caminho.