quinta-feira, 19 de março de 2026

Um Desafio Contínuo

 Equilibrar-se é, para mim, um exercício diário de paciência. Assim como ouvir sobre isso ainda. Não é novidade, eu sei, já falei disso antes, mas há temas que insistem em voltar, como se pedissem "um bis". E o equilíbrio, esse velho conhecido, é um deles. Por mais que eu me esforce, ele nunca está completamente sob meu comando. Melhorou, claro. Caio menos. Mas ainda não é algo que posso dizer que está no meu controle.

É cansativo admitir isso, especialmente depois de tantos avanços. Cansativo repetir, explicar, justificar. Cansativo sentir o corpo travar, os músculos reclamarem, o desconforto subir pelas costas enquanto tento me firmar em qualquer superfície que esteja ao alcance. E, no meio desse esforço silencioso, às vezes escapam sons, pequenos, agoniados, que despertam olhares preocupados ao redor. Não são pedidos de socorro; são válvulas de escape. Talvez nem eu entenda completamente, mas sinto que preciso deixar o incômodo sair de algum jeito. É como se o corpo pedisse para extravasar, para não guardar tudo ali dentro.

O corpo humano tem dessas ironias. É como um amigo antigo que conhece todos os nossos truques e, ainda assim, insiste em nos mostrar quem é que manda. Às vezes diverte; noutras, inquieta. O meu, ultimamente, tem preferido a segunda opção. E a origem dessa travessura mora no cerebelo, essa pequena estrutura que, desde o meu nascimento, carrega uma lesão e dita o ritmo da minha dança diária.

Sim, dança. Porque, querendo ou não, virei bailarina de uma coreografia que nunca ensaiei. O cerebelo cuida do equilíbrio, da coordenação, do jeito de caminhar. E eu, que jamais sonhei com palcos, só se for para teatro haha (que é minha formação), vivo sendo testada como se estivesse numa audição interminável.

Todos os dias acordo convocada para mais uma prova. Me equilibrar enquanto me desequilibro virou quase um esporte radical. E o mais curioso é que não posso culpar uma coreografia mal aprendida: nunca fiz curso, não tenho diploma, e ainda assim improviso passos que ninguém me ensinou.

O equilíbrio é um processo delicado. Sem uma estrutura firme, cada movimento parece uma aposta. Caminhar é como pisar num chão que muda de textura a cada instante. A gente tenta, respira fundo, inventa maneiras de seguir, e segue.

Brinco que vivo improvisando, mas talvez seja menos brincadeira e mais constatação. A vida exige que dancemos conforme a música, mesmo quando não sabemos a letra, o ritmo ou sequer o nome da canção. Inventar passos virou rotina. Criar estratégias no susto é meu cotidiano, vinte e quatro horas por dia, numa coreografia contínua, sem ensaio, sem plateia, mas cheia de persistência.

No fim das contas, talvez equilíbrio não seja a ausência de quedas, mas a coragem de continuar dançando, mesmo quando o chão insiste em balançar.

segunda-feira, 16 de março de 2026

Um relato pessoal sobre desafios, descobertas e adaptações

Não deve ser fácil descobrir uma deficiência. Quer dizer, imagino que não tenha sido. Eu estava lá, claro, mas não lembro de nada, só sei que alguma coisa deve ter acontecido para eu ter vindo assim, digamos, de fábrica. Congênita ou adquirida, pouco importa: o fato é que, em algum momento, alguém percebeu que eu era diferente dos outros. Mais do que eu gostaria.

O difícil mesmo, descobri depois, não foi nascer assim. Foi crescer assim. Porque crescer é, entre outras coisas, perceber. E eu percebia, às vezes cedo demais, que outras pessoas da minha idade, e até de idades bem diferentes, faziam coisas que eu simplesmente não conseguia fazer. Já tentei, juro que tentei, mas tem coisa que não dá mesmo. E aceitar isso é um processo que não vem com manual de instruções.

Recentemente, pensei em minha mãe e em como deve ter sido enfrentar uma nova gestação já convivendo com uma filha com deficiência. Essa dúvida ficou comigo por dias, como um objeto frágil que não sei onde apoiar.

Sou a primeira da família a nascer com uma deficiência. Já contei isso em “Os Souza”. E, até hoje, não faço ideia de como a notícia repercutiu entre eles. Imagino olhares trocados, silêncios longos, talvez alguma preocupação disfarçada de força. Mas ninguém nunca me contou, e eu também nunca perguntei. Aliás, até acho que perguntei, mas ...

O que sei, isso sim, com absoluta certeza, é que conviver com uma deficiência e me reconhecer além dela foi o que me salvou e tem me salvado desde então. Depois de algumas questões no meio do processo J. Foi o que me permitiu, por assim dizer, me “acostumar” a ela. Descobrir o que posso ou não posso fazer, e principalmente como fazer. Porque depender dos outros para sempre nunca esteve nos meus planos.

E assim sigo: meio torta, meio teimosa, completamente minha. De fábrica, sim, mas com muitas peças que fui aprendendo a montar sozinha ao longo do caminho.