Equilibrar-se é, para mim, um exercício diário de paciência. Assim como ouvir sobre isso ainda. Não é novidade, eu sei, já falei disso antes, mas há temas que insistem em voltar, como se pedissem "um bis". E o equilíbrio, esse velho conhecido, é um deles. Por mais que eu me esforce, ele nunca está completamente sob meu comando. Melhorou, claro. Caio menos. Mas ainda não é algo que posso dizer que está no meu controle.
É cansativo admitir isso, especialmente depois de tantos
avanços. Cansativo repetir, explicar, justificar. Cansativo sentir o corpo
travar, os músculos reclamarem, o desconforto subir pelas costas enquanto tento
me firmar em qualquer superfície que esteja ao alcance. E, no meio desse
esforço silencioso, às vezes escapam sons, pequenos, agoniados, que despertam
olhares preocupados ao redor. Não são pedidos de socorro; são válvulas de
escape. Talvez nem eu entenda completamente, mas sinto que preciso deixar o
incômodo sair de algum jeito. É como se o corpo pedisse para extravasar, para
não guardar tudo ali dentro.
O corpo humano tem dessas ironias. É como um amigo antigo
que conhece todos os nossos truques e, ainda assim, insiste em nos mostrar quem
é que manda. Às vezes diverte; noutras, inquieta. O meu, ultimamente, tem
preferido a segunda opção. E a origem dessa travessura mora no cerebelo, essa
pequena estrutura que, desde o meu nascimento, carrega uma lesão e dita o ritmo
da minha dança diária.
Sim, dança. Porque, querendo ou não, virei bailarina de
uma coreografia que nunca ensaiei. O cerebelo cuida do equilíbrio, da
coordenação, do jeito de caminhar. E eu, que jamais sonhei com palcos, só se
for para teatro haha (que é minha formação), vivo sendo testada como se
estivesse numa audição interminável.
Todos os dias acordo convocada para mais uma prova. Me
equilibrar enquanto me desequilibro virou quase um esporte radical. E o mais
curioso é que não posso culpar uma coreografia mal aprendida: nunca fiz curso,
não tenho diploma, e ainda assim improviso passos que ninguém me ensinou.
O equilíbrio é um processo delicado. Sem uma estrutura
firme, cada movimento parece uma aposta. Caminhar é como pisar num chão que
muda de textura a cada instante. A gente tenta, respira fundo, inventa maneiras
de seguir, e segue.
Brinco que vivo improvisando, mas talvez seja menos
brincadeira e mais constatação. A vida exige que dancemos conforme a música,
mesmo quando não sabemos a letra, o ritmo ou sequer o nome da canção. Inventar
passos virou rotina. Criar estratégias no susto é meu cotidiano, vinte e quatro
horas por dia, numa coreografia contínua, sem ensaio, sem plateia, mas cheia de
persistência.
No fim das contas, talvez equilíbrio não seja a ausência
de quedas, mas a coragem de continuar dançando, mesmo quando o chão insiste em
balançar.
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