Há coisas que, quando olho para trás, até agradeço. Coisas que a gente só entende quando olha pelo retrovisor da vida. E olha, no meu caso, esse retrovisor já meio embaçado, precisando de um limpa-vidros emocional. Mas funciona, na hora, parecem tragédias pessoais, injustiças cósmicas, puxões de tapete cuidadosamente coreografados pelo destino.
O que hoje
chamaríamos de livramento (na minha época acho que não era esse nome não
😉), mas o efeito é o mesmo: a vida
tira algo da sua frente como quem recolhe um copo prestes a cair da mesa. A
gente reclama, claro. Dói, mas faz parte do show. Só depois a gente percebe que
esse copo já estava trincado, e faz tempo.
Virar a
página não é tão simples quanto parece. Não é como nos livros, onde você pode
deixar um marcador de página e voltar quando quiser. E arrancar um capítulo
inteiro dói, dói como tirar Band-Aid de pele sensível. Parece legal, poético,
mas quem inventou essa metáfora do Band-Aid certamente nunca precisou arrancar
nada que realmente importasse. Porque cada página que a gente arranca deixa uma
cicatriz discreta, daquelas que só a gente sabe que existe, mas uma cicatriz
que cicatriza com o tempo.
E vou
confessar: eu, que sou bastante emotiva para algumas coisas, esquecer de certas
coisas ou até mesmo de pessoas, não tem sido um processo fácil. Na verdade,
quase nunca é, mas acho que chega um momento que temos que dar marcha ré para
não doer mais ainda.
Doeu um pouco, mas preciso pensar que foi melhor assim, acho que se pensar
de outra forma enlouqueço. Ainda assim, a gente segue. Meio mancando, meio
teimando, mas segue.
E, no caminho, no meio desse processo, a gente descobre umas verdades
incômodas. Por exemplo: aquela massagemzinha no ego quando alguém do passado dá
sinais de vida. É doce, claro. Mas é doce tipo bala que a gente ganha na saída
do consultório, inesperada, simpática, mas totalmente dispensável. A gente não
precisa disso para seguir respirando, embora o ego insista em dizer que sim.
No fim das contas, virar a página talvez seja mesmo o melhor que pode
acontecer. Não porque o passado era ruim, às vezes até era ótimo, mas porque a
gente merece histórias novas. E porque, convenhamos, tem coisa que só faz
sentido quando vista de longe, com a serenidade de quem já sobreviveu ao
próprio caos.
"Livramento" é uma palavra bonita. Não só pelo som, mas pelo que
carrega: a ideia de que a vida, às vezes, sabe mais do que nós. E que, de vez
em quando, o maior favor que ela pode nos fazer é tirar da nossa mão aquilo que
jurávamos ser essencial.
Agradecer vem depois. Sempre vem. É só questão de tempo.
E olha... enquanto escrevo isso, parece mais uma confissão, e talvez até
seja... Sabe, escrever o que sinto tem disso uma espécie de purgação, como se jogasse
tudo numa fogueira imaginária e assistisse queimar.
Claro que ainda tenho algumas inseguranças e tal, não sou tão bem resolvida
quanto às vezes pareço ser, mas estou tentando e espero sinceramente estar
conseguindo...até para o meu próprio bem😊