Terça feira, dia 7 de abril de 2026, enquanto assistia a um filme denso num cinema aqui de Brasília, uma frase me atravessou como uma flecha: tem gente que gosta de flertar com o perigo. Acredito que não seja intencionalmente, ou assim espero, mas como não sou psicóloga, pelo menos não formada ainda, o que me peguei pensando me intrigou bastante e, por lá ficou.
Claro que o filme
nem era exatamente sobre perigo, é sobre outra coisa (embora acredito que haja
uma relação entre perigo e o que propõe o filme) mas, mesmo assim...a temática
do filme em questão está relacionada a crimes de ódio, para dizer o mínimo. Também
tenho a dizer sobre crimes de ódio mas hoje, aliás terça, o que ficou em minha
mente foi o perigo e porque algumas pessoas procuram por ele.
E, como acontece com pensamentos que chegam
assim, abruptos, quase insolentes, ele permaneceu comigo desde então. Me
acompanhou até a saída do cinema e seguiu no trajeto de volta para casa. E
quanto mais tentava ignorá-lo, mais ele se expandia, como se tivesse encontrado
ali um terreno fértil.
Lembrei-me
daquela frase que o Simba, do filme Rei Leão, de 1994, disse: eu rio da cara
do perigo. Depois, a imagem da personagem da psiquiatra Drª Quinzel deslizando lentamente para dentro do caos
que era o Coringa, se tornando Arlequina, ao se apaixonar por seu paciente (não
porque queria o mal, mas porque o perigo, para ela, tinha um sorriso sedutor
demais) no universo dos quadrinhos.
Fiquei com isso
na cabeça... Por que o perigo é tão sedutor? E por que existem pessoas que
flertam com ele? E aí a pergunta se
impôs: se o perigo fosse uma pessoa, como seria?
Talvez tivesse olhos
que brilham mais do que deveriam, daqueles que fazem você esquecer por um
instante que luz demais também cega. Talvez falasse baixo, com uma calma que
desarma. Talvez soubesse exatamente quando se aproximar, nunca cedo demais,
nunca tarde demais. O tipo de presença que faz o coração acelerar, mas você não
sabe se é de medo ou de fascínio.
O perigo, se fosse
gente, provavelmente teria esse talento estranho de fazer você se sentir viva.
Não porque oferece segurança, mas porque te coloca na beira do abismo e
sussurra: olha como o mundo é grande daqui de cima.
E por que algumas
pessoas flertam com ele?
Talvez porque o
perigo promete aquilo que o cotidiano raramente entrega: intensidade. Talvez
porque, no fundo, exista uma curiosidade quase primitiva de tocar o fogo só
para ver se queima mesmo. Ou porque algumas almas se acostumaram tanto ao caos
que o silêncio as assusta mais do que o risco.
Ou, quem sabe,
porque o perigo, assim como certos personagens de cinema, sabe exatamente como
entrar na mente de alguém e ficar lá, rondando, provocando, perguntando.
E, saindo do cinema
naquela noite, percebi que o perigo não é apenas uma força externa. Às vezes,
ele é uma pergunta. Uma inquietação. Uma sombra que se move dentro da gente.
E talvez seja por
isso que ele seduz tanto. Porque, no fundo, ele nos obriga a olhar para partes
de nós que preferimos manter escondidas.
Foi aí então que o
pensamento deu outra guinada, comecei a pensar nos perigos relacionados à
deficiência. Quando penso nos
perigos relacionados à deficiência, percebo que não se trata apenas de
obstáculos físicos ou barreiras arquitetônicas. O perigo também pode surgir das
atitudes, do olhar alheio que, muitas vezes, subestima ou invisibiliza. Existe
um risco silencioso de ser reduzido a um rótulo, de perder nuances e sonhos
porque o mundo insiste em enxergar apenas uma parte de quem se é. Além disso, o
perigo pode estar no cotidiano: desde a falta de acessibilidade até o medo de
não ser compreendido ou protegido em situações de emergência. Para quem vive
com deficiência, o perigo frequentemente se apresenta disfarçado de indiferença
ou descaso, tornando a vida uma constante negociação entre o desejo de
autonomia e a necessidade de segurança.
Tenho uma
deficiência física e isso automaticamente, ou não, torna o mundo perigoso para
mim. Obstáculos, dúvidas (dos outros e minhas), o querer e realmente poder,
porque é muito bonito o ditado: querer é poder mas, hoje observo que nem sempre
é assim.
E talvez seja por
isso que aquela frase no cinema me atravessou tanto. Porque, no fundo, o perigo
não é apenas aquilo que ameaça. Às vezes, ele é aquilo que revela. Aquilo que
expõe. Aquilo que nos obriga a admitir que viver, para algumas pessoas, é um ato
de coragem diária.
E, naquela
terça-feira, percebi que o perigo não estava só na tela. Ele estava comigo. E
eu, de algum modo, estava tentando entendê-lo.