sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

preconceito do preconceito

Tenho preconceito contra o preconceito. Pronto, falei! E não é figura de linguagem, não. É implicância mesmo, daquelas que fazem a gente franzir a testa e suspirar fundo, até para não perder o reú primárioK, como quem tenta entender o inexplicável.

Porque, sinceramente, que história é essa de diminuir alguém por ser quem é? Que mania irritante essa de classificar pessoas como se fossem produtos numa prateleira de supermercado. “Esse aqui serve, esse aqui não serve, esse aqui talvez, dependendo da promoção.”

É ou não é sintoma de ignorância?

O preconceito é isso: ignorância com diploma. Falta de informação, falta de empatia, falta de vontade de olhar o outro como gente. Falta, falta, falta. E, ainda assim, ele aparece por aí, desfilando com a maior naturalidade, como se fosse moda antiga que ninguém teve coragem de aposentar.

Mas eu também não vou bancar o iluminada. Se tem uma coisa que aprendi vivendo 24 horas por dia, todos os dias, a realidade de quem tenta enfrentar o preconceito de cabeça erguida (às vezes chora também mas faz parte) e também dentro da minha própria cabeça, e olha que é um lugar movimentado, é que ninguém está totalmente livre disso.

Todos temos nossos preconceitos, não vou ser hipócrita aqui né... Uns mais escondidos, outros mais teimosos. A diferença está no que fazemos com eles. (Parece fácil né...)

E aí entra a minha teoria, que desenvolvi entre um café e outro, observando o mundo com a paciência de quem tenta entender um meme antes de admitir que já está velho demais para isso: Existe o preconceituoso raiz e o preconceituoso Nutella.

Calma, eu explico. O preconceituoso raiz é aquele clássico, tradicional, quase folclórico. Cresceu ouvindo absurdos, nunca questionou nada, repete tudo como se fosse verdade absoluta. É o tipo que acha que opinião é escudo e que respeito é opcional. Ele não se esconde, não se envergonha, não se atualiza. É bruto, direto, e infelizmente muito eficiente em espalhar bobagens.

Já o preconceituoso Nutella… ah, esse é mais sutil. É o que diz “não sou preconceituoso, mas…”, e aí vem a frase que entrega tudo. É o que se acha moderno, desconstruído, evoluído, até ser confrontado com algo que desafia seu mundinho confortável. Ele não grita, não bate no peito, não se assume. Prefere o preconceito gourmet, temperado com justificativas e boas intenções.

E o mais curioso é que essas categorias, raiz e Nutella, são gírias novas, memes recentes, coisa de 2016 pra cá. Mas o preconceito, esse é antigo. Antiquíssimo... Só ganhou novas embalagens.

No fim das contas, continuo aqui, com meu preconceito contra o preconceito. Talvez seja o único tipo que eu aceito carregar sem culpa. Porque, se for pra escolher um lado, fico com o lado que tenta, pelo menos tenta, fazer o mundo um pouco menos estreito.

Às vez eu acho que pessoas Nutella podem estar abertas, se quiserem, a adquirem novas informações, conhecimentos... Ou sei lá, às vezes é só minha visão mesmo...

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Gramado, entre o passado e o meu próprio equilíbro

 Em 2011, não me recordo o dia, escrevi um texto sobre um dos lugares que mais amo e, hoje, alguns anos depois, lendo o que já tinha escrito, resolvi fazer uma espécie de continuação talvez? 😂Vamos ver o que sai?

Não é só uma cidade. Não é só um ponto no mapa, nem apenas o lugar onde meus avós gostavam de ir e atualmente onde meu vô morava antes de falecer. Gramado, para mim, é outra coisa, maior, mais profunda, fazia parte da minha própria história. Sim, é turística. Sim, tem quem ache brega, exagerada, cenográfica demais. Mas eu não ligo. Ali, eu me sinto bem. Me sinto feliz. Ouso dizer que se tornou um dos meus lugares favoritos no mundo.

Claro que a felicidade não depende de CEP. A tristeza também viaja. Mas essa não é a questão. Nos próximos parágrafos, explico por que Gramado nunca foi apenas uma cidade no Rio Grande do Sul.

Uma das pautas que mais me mobiliza hoje é a acessibilidade, talvez porque eu more em Brasília, talvez porque viver com uma limitação física te obriga a enxergar o mundo por ângulos que muita gente ignora. Não é que só Brasília tenha problemas, longe disso. Mas quando você vive em um corpo que precisa de atenção extra para se equilibrar, qualquer desnível vira um obstáculo, qualquer calçada irregular vira um convite ao medo. E, por isso, quando encontro um lugar onde posso simplesmente ir e vir, sem tanto receio, aquilo se torna precioso.

E é aí que Gramado entra.

É uma das poucas cidades onde não tenho tanto medo de caminhar sozinha. Onde meu desequilíbrio, esse velho companheiro, parece menos ameaçador. Onde posso existir com mais autonomia, mais liberdade, mais leveza. E isso, para mim, vale ouro. Claro que depende do lugar onde você se instala e isso é em todo lugar, não só Gramado.

Mas antes de falar das ruas, preciso falar da magia.

Nos conhecemos há anos, tantos que já perdi a conta. O caminho até lá sempre me deixa animada, como se eu estivesse prestes a reencontrar uma parte de mim mesma. A arquitetura charmosa, inspirada nas no estilo bávaro e alemão, me transporta para filmes que assisto na Netflix ou outras plataformas. Gramado parece saída de um sonho: casas que parecem cartões-postais, paisagens que parecem cenários, ruas que parecem abraços.

E tem as festividades, claro. Ah, as festividades.

O Natal Luz, por exemplo, começou um ano depois de eu nascer, como se a cidade tivesse se preparado para receber uma pequena apaixonada por Natal. A Páscoa com o Chocofest, que faz qualquer chocólatra (eu!) perder o rumo. Os cafés coloniais, os fondues, as fábricas de chocolate, o Ateliê do Café, que, para minha tristeza, fechou. Cada data comemorativa vira espetáculo, e eu, que adoro brilho, cor e criatividade, nado de braçada.

Mas Gramado é mais do que isso.

É uma cidade arrumadinha, limpa, organizada. E, para mim, o mais importante: acessível. Não perfeita, claro, mas muito mais acolhedora para quem precisa de segurança para caminhar. Ali, posso fazer coisas sozinha sem tanto medo de cair, sem tantos olhares julgadores, sem tantas barreiras físicas. Autonomia e liberdade são essenciais para mim, e cada vez mais tem sido, e Gramado me devolve as duas.

E tem outra coisa: Gramado me lembra minha avó.

Ela adorava ir lá. Era nosso lugar. Quando passávamos pelo pórtico e eu via as hortênsias, já sabia que a alegria estava garantida. Cresci indo para lá, e cada visita é como abrir uma caixinha de memórias: infância, risadas, descobertas. Hoje, adulta, com responsabilidades e limitações, ainda encontro ali um pedaço daquela menina que corria livre, mesmo sem tanto equilíbrio.

Quando penso em viajar, preciso considerar coisas que muita gente nem imagina: segurança, equilíbrio, custos emocionais. Viajar sozinha ainda é algo delicado. Mas Gramado… ah, Gramado sempre parece valer o esforço.

Não é só uma cidade charmosa. É um lugar que me devolve algo que, às vezes, o mundo tenta tirar: a sensação de que posso ir, vir, existir e aproveitar, no meu ritmo, no meu jeito, com minhas limitações e minhas conquistas.

Gramado é meu passado, meu presente e, tomara, meu futuro. Um dos meus lugares favoritos no mundo. Um pedaço de mim.

Preciso dizer que não é apenas Gramado que me conquista; há outros lugares que também me encantam 😊. A acessibilidade pode ser um pouco menor em alguns deles, mas, como mencionei antes, essa questão está presente em todo lugar.

 

 


sábado, 10 de janeiro de 2026

Outros tabus? De frente com...

Entre 2005 e 2010, enquanto tentava sobreviver à 1ª faculdade, às provas, aos trabalhos e aos professores que achavam que “participação” era sinônimo de “falar sem parar”, o que hoje meio que faço 😄, algumas pessoas resolveram me fazer algumas perguntas, com um certo receio. Mal sabem que eu não mordo, pelo menos sem motivo 😊 Era uma espécie De Frente com Gabi improvisado no corredor, ou um Conversa com Bial versão universitária.

Inclusive, anos depois, até vídeo fiz no meu Instagram sobre isso. Porque veja bem, curiosidade todo muito tem, mas coragem de perguntar, nem sempre. O que me incomoda não é a pergunta em sim, e como fazem. Claro que para pessoas que não tem deficiência alguma não perguntariam essas coisas né, mas, respondendo as perguntas na mesma linha do De frente com Gabi e Conversa com Bial, temos.... De frente com Júlia 😉

Obs: o vídeo falando disso, postei em 2021.

Detalhe, algumas pessoas até podem ter curiosidade, mas não perguntam. Separei aqui, dentre as perguntas que já fizeram, três que, digamos assim, foram as que me perguntaram mais, eu acho, e merecem registro.

1.       Você bebe, pode beber?

2.       Você pode dirigir?

3.       Você pode engravidar?

Vamos lá... vou responder, agora já com 40 anos (já que fiz o vídeo com 36 anos). Pouco tempo de diferença né😉

Bom, respondendo em ontem numérica 😉... Você bebe? Pode beber?  Como se houvesse um decreto universal proibindo pessoas com deficiência de brindar a vida. Pois bem: posso beber sim. Não bebo muito, nem todo dia, até porque ressaca não tem empatia com ninguém, não bebo para ter ressaca mas tudo bem, mas posso. E agradeço a preocupação, de verdade. Só não agradeço a suposição de que meu corpo vem com manual de restrições que só os outros conhecem. Isso irrita um pouco, sabe?!

Segunda pergunta: dirigir. Ah, dirigir… esse sonho antigo. Quando eu era pequena, imaginava que um dia estaria por aí, volante na mão, vento no rosto, talvez até com óculos escuros só para dar estilo. Aí veio a realidade: Paralisia Cerebral, essa condição neurológica que decidiu afetar justamente minha coordenação motora e meu equilíbrio. Resultado: mesmo um carro adaptado provavelmente me transformaria num carrinho bate-bate ambulante, pronta para abraçar o primeiro poste da rua. Mas a vida tem senso de humor. Não dirijo carro, mas dirijo meu triciclo. E, para minha surpresa, também um barco a vela, mesmo que pequeno. Quando consegui pela primeira vez, fiquei tão feliz que quase virei o barco só de emoção😊 Está dando certo, e isso já vale mais que qualquer carteira de motorista. Acho😎

Última pergunta e, tenho algumas considerações sobre essa aqui: Não é porque tenho útero que sou obrigada a usá-lo. Até onde sei, maternidade é escolha, não destino biológico. No meu caso, a decisão sempre passou por proteção e segurança. Já me disseram que eu estava sendo preconceituosa comigo mesma, como se alguém além de mim soubesse o que é viver se equilibrando no próprio desequilíbrio. Eu conheço minhas limitações, minhas possibilidades e, principalmente, as consequências de cada passo. O que eu não sei, aprendo no caminho. E, sinceramente, ter ou não ter filhos nunca foi uma questão para mim. Talvez porque, desde cedo, entendi que meu corpo exige cuidados extras, especialmente quando o assunto é equilíbrio, físico e emocional.

Hoje, aos 40 anos, olho para essas perguntas com um sorriso meio torto, meio irônico. Não porque elas sejam absurdas, mas porque revelam o quanto as pessoas ainda tentam encaixar vidas como a minha em moldes que nunca nos serviram.

E sigo aqui, respondendo, vivendo, navegando, literalmente, e lembrando que, no fim das contas, a entrevista é comigo, mas o roteiro é meu. Se existirem mais perguntas, respondo mas eu escolho como responder e o que responder 😉

 

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Divertidamente....ou talvez nem tanto😄

Um dos textos mais, digamos, divertidos de escrever foi o que intitulei de “Um dia ainda te pego” .... Acho que quem leu o título deve ter achado que poderia ser algo relacionado a safadeza 😆! Sinto decepcionar, mas nesse contexto, estava falando de um velho amigo que, hoje recebo de braços abertos, mesmo às vezes querendo um pouco longe de mim, o medo. E não é aquele medo do filme “Divertidamente” não, aquele até que é bem bonitinho...

Medos todos nós temos, mas em certos contextos, certas situações e circunstâncias, precisávamos enfrentar antes que fiquem maiores e perdemos a força e a coragem para fazer o que temos que fazer. O medo não precisa ser o vilão das nossas histórias, fica perigoso quando o deixamos crescer demais.

Prioridades...ainda acho bastante necessárias. Por que enfrentar, seja o medo ou o que for, não é sobre bravura, é sobre escolher o que importa mais do que o desconforto. É quase uma matemática emocional: “o que eu quero vale mais do que eu temo?”. A gente vai com medo, mas vai e as vezes, tremendo ainda 😄

Uma amiga me fala de vez em quando que sou corajosa, se referindo em particular as minhas cirurgias. A questão aqui não é nem coragem, é precisar mesmo. Tenho medo de cair, sim. De precisar de outra cirurgia, sim...Tenho medo de tanta coisa, mas agora já um pouco mais velha, percebo que se deixar o medo vencer, já era, você se entrega. E, se entregar, só romanticamente talvez e, mesmo assim dá um medo danado hahaha

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Vem ai...

Vou entrar 2026 com mais uma cirurgia para a conta.... Na verdade, já vamos para a sexta 😄. Totalizando terei seis cirurgias em mim, pois é, da cintura para baixo do meu corpo.... só espero não ser a mulher biônica. 😅

Contando as cirurgias: a primeira e a segunda foram em dois anos consecutivos, 2006 e 2007, enquanto estava ainda na 1ª faculdade, ambas no joelho esquerdo; a terceira veio em 2019, já na 2ª faculdade e essa cirurgia foi em outro lugar do corpo; a quarta e a quinta voltaram para joelhos, uma em 2021, no joelho direito, e outra no ano passado, que foi a reconstrução da primeira cirurgia. Complexo néJ! E a sexta, para diferenciar um pouco, mas continuando nos membros inferiores para colocar assim, será no tornozelo direito.

As cirurgia dos joelhos, incluindo a desse ano, do tornozelo, são consequências da deficiência ao longo dos anos. Com o tempo, colecionei quedas e machucados. A cada queda que tomava pensava que por mais cuidado que tivesse comigo, parecia não adiantar muito assim... uma visão meio pessimista talvez né, mas era o que era.

Ainda assim, fui conquistando minha autonomia. Uma independência que, ironicamente, também depende de algumas coisas e pessoas. Antes eu tinha vergonha de pedir ajuda quando saía sozinha. Hoje, além de não ter mais vergonha, percebo que nem preciso tanto assim. Atualmente tenho meu triciclo e minhas aulas de vela, fico triste porque vou ter que ficar um tempo sem essas atividades das quais gosto tanto mas, nessas alturas do campeonato já meio que aceitei e entendi que a realidade que me foi dada requer algumas pausas de vez em quando, mesmo que forçadamente 😉!

Sabe, dia 18 de dezembro fez um ano da minha última cirurgia e cá estou, me preparando para a próxima, no caso a sexta. Ta cansativo isso já! Na verdade, tem sido cansativo já há algum tempo. Até tenho boa memória sabe, eu acho pelo menos, mas não vou lembrar de todas as quedas que tive né haha!

Às vezes paro para pensar no quanto tudo isso tem exigido resiliência de mim. Não é só o corpo que precisa se recuperar, mas também a mente, que enfrenta cada notícia, cada novo procedimento, tentando manter a esperança e o bom humor, mesmo nos momentos de maior exaustão.

Atualmente sinto que meu corpo já está cansado ou cansando de tantas agressões, entre quedas, machucados, cirurgias. E, eu também já estou ficando bem cansada.

Já deu né Júlia. Você não é a Xena, a princesa guerreira, embora às vezes pareça querer ser.

 

 

 

 

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

“Vive-se com a deficiência, não para a deficiência”.

Dia 3 de janeiro fez um mês que defendi minha monografia e, uma frase em particular chamou minha atenção, claro que adorei escrever cada pedacinho desse trabalho que fazia tempos queria escrever, mas algo em particular cativou meus pensamentos e resolvi, em cima disso, escrever algo sobre...

“Vive-se com a deficiência, não para a deficiência”. Essa frase foi de uma das participantes da monografia realizada no semestre passado. Acredito que ela não veio exatamente assim, é claro que passado por algumas transformações e elucubrações sobre o assunto é que essa frase acabou fazendo sentido na cabeça de quem vive com alguma deficiência. No caso em questão, essa participante se tornou uma pessoa com deficiência em decorrência de uma doença progressiva já descoberta depois de maiorzinha. E, mesmo vindo de trajetórias tão diferentes, essa frase encontrou um lugar dentro de mim.

Aprende-se a viver com a deficiência? Talvez. Mas não é um aprendizado romântico, organizado e gentil. Na marra talvez, no cotidiano, tropeçando nos próprios limites e nos limites que o mundo impõe, vivenciando seus obstáculos, encarando pessoas que muitas vezes podem te encarar de uma maneira não muito legal…. A questão é, não existe manual, é algo que acontece ou aconteceu ou pode vir a acontecer (esperamos que não, mas não temos controle dessas coisas).

Mas por que falar disso agora? Olha… Porque já faz tempo que sinto vontade de escrever sobre a realidade em que vivo. E, quanto mais conheço histórias parecidas com a minha, mais essa vontade cresce. Existe algo poderoso em perceber que não estamos sozinhos, mesmo quando nossas experiências são únicas.

Sabemos ou algumas pessoas sabem 🤣, que vivemos em uma sociedade capacitista, que julga rápido demais e entende pouco demais. Isso sempre me incomodou. Hoje incomoda de outro jeito, talvez mais silencioso, talvez mais consciente, mas incomoda. E eu me pego pensando por que ser como somos pode causar desconforto em algumas pessoas? Porque a diferença, quando aparece no corpo, vira motivo de estranhamento? Porque a existência de alguém que foge do “padrão” ainda é vista como algo que precisa ser explicado, justificado ou tolerado?

Talvez escrever sobre isso seja uma forma de devolver o olhar. De mostrar que a deficiência não é um problema a ser resolvido, mas uma realidade a ser vivida, com suas complexidade, com cansaço, com humor, com força, com humanidade.

É como se cada dia fosse um exercício de adaptação, não só ao ambiente ao nosso redor, mas também às nossas próprias emoções e expectativas. O processo de aceitar e conviver com a deficiência exige uma força que muitas vezes nem sabíamos que tínhamos. Ao mesmo tempo, nos ensina sobre empatia, resiliência e sobre o valor de enxergar o outro além das aparências.

 

 

 

 


quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

O tempo passa....e foi passando...

Em 2011, escrevi um texto que intitulei “Minha vida com Ataxia”. Gostei muito de escrevê-lo. Na época, foi quase que libertador colocar em palavras aquilo que eu vivia. Hoje, tantos anos depois, sinto vontade de revisitar essa história, não porque ela mudou completamente, mas porque eu mudei dentro dela. Deixa tentar melhorar um pouquinho e trazer para como me sinto hoje...

Ataxia, para quem não sabe é o nome da minha deficiência, quer dizer, o nome mesmo é Paralisia Cerebral, o tipo é que é atáxica. É uma lesão cerebelar que ocasiona falta de coordenação motora e o equilíbrio. Não conhecemos a causa, por isso é definida por etiologia indeterminada.

Primeiro, deixa eu contextualizar, sou uma pessoa muito brincalhona, tenho meu lado sério também, mas algumas pessoas costumam ter mais meu lado “palhacinha”, como me disseram uma vez, e acho que esse meu lado virou meio que uma proteção minha, uma válvula de escape, dizendo psicologicamente. E assim ficou...

O tempo foi passando e acredito que meio que se fundiu na minha personalidade (acredito que tenha uma de nascença, que são seus traços, e outra que vai se moldando ao longo do tempo) .... Pois é, acho que quem tem alguma circunstância diferenciada, digamos assim, meio que aprende algumas técnicas de sobrevivência para conseguir lidar da melhor maneira que conseguem com seus obstáculos diários. É importante reconhecer e acolher essas estratégias que criamos para seguir em frente. Elas não apenas nos ajudam a enfrentar os desafios mais evidentes, mas também fortalecem nossa autoestima e nossa capacidade de adaptação. Cada pequena conquista diária se torna um motivo de orgulho, e esse processo de aceitação acaba sendo compartilhado, mesmo que sem intenção, com quem está ao nosso redor.

É cansativo sabe.... Mesmo depois de anos, fica meio cansativo durante todos esses anos conviver com o fato do seu equilíbrio pode te desequilibrar a qualquer momento, por mais cuidado que tenha consigo mesmo. É chato na verdade, não vou negar...É cansativo e desafiador. A impressão que dá algumas vezes é de que, quem está de forra (todo mundo tá de fora, o corpo é seu, não dos outros 😊), deve achar que para me equilibrar é só olhar por onde pisa. Não, não é! Não sei bem o que acontece nessas “engrenagens”, mas parece ser um pouco mais complexo do que pensam. E também não é só uma questão de olhar para frente e para baixo, se fosse tão simples assim...

Falo que às vezes preciso fazer uma espécie de reconhecimento de terreno por onde seria melhor passar, mas, esse “terreno” sendo irregular e algumas vezes desnivelado com a maioria das ruas e calçadas que nós temos, não ajuda muito né?

Viver com Ataxia é isso: um equilíbrio constante entre o que o corpo permite, o que a mente aprende e o que o coração insiste em continuar.😘