Tenho fome de vida... Daquela vida suculenta, bem temperada, servida em porções generosas e sobremesa incluída. Mas a verdade é que às ela vem temperada com umas pimentas que ninguém pediu. Arde, incomoda, dá vontade de reclamar com o gerente. Mas não desisto não, mesmo que ela não tenha sido muito gentil comigo... Mesmo que pessoas não tenham sido gentis...
Mas a vida
me deu e tem dado material para trabalhar. E olha que material não me
falta...dá só uma olhada nos que vem a seguir:
Outro dia,
sem aviso prévio, porque memórias inconvenientes nunca batem na porta, estive
pensando, não sei exatamente por que, nos episódios de bullying que me vieram a
mente há um tempo. Minhas gavetas internas se abriram como quem diz: “surpresa,
voltei!”, e de lá saíram de dentro duas lembranças tão fortes quanto uma bolada
de queimada no rosto... ambas da minha versão ensino fundamental. Por mais que
aquela versão ainda habite em mim, como tudo ao longo do tempo muda e evolui,
também passei por essa transformação, hoje já um pouco de cabelos grisalho e
com machucados e cirurgias, mas confesso que ter de volta tais
lembranças já consigo encontrar outas reações dentro de mim.
Percebi
que hoje eu reajo diferente. Não porque ficou leve (trauma não vira pluma) mas
porque eu virei outra. Cresci, mudei, evoluí, descasquei umas camadas, coloquei
outras. A versão fundamental ainda existe, mas agora ela divide espaço com
alguém que sabe olhar para trás sem se perder lá.
Não se
engane, não foi legal na época e com certeza não é agora. Não estava preparada
para sua volta, e definitivamente não estava na minha programação do dia. Mas
já que apareceram, resolvi não expulsá-las. Quem sabe não viram material
criativo? Vai que rendem uma crônica (Aliás, já renderam: o texto “A gangue do
deboche”. Obrigada, memórias inconvenientes, pela colaboração involuntária.)
Hum...
E aí, no meio desse revival
inesperado, me peguei pensando nas temidas, para mim pelo menos, 3ª e 5ª série.
Temida por alguns. Ou só por mim. Talvez só por mim mesmo, porque cada um sabe
onde o calo apertou e onde o tênis escolar machucou.
E, claro,
como toda boa memória inconveniente, ela trouxe companhia: A 3ª série trouxe o
isolamento dos colegas. Se fosse hoje, talvez eu até agradeceria a distância,
só não precisava ser com tanta crueldade. Dividiram a sala para “não pegar”
(pegar o quê? A babaquice deles?). Na educação física, ninguém me escolhia para
nada. E alguns professores achavam que me dar tarefas “fáceis” era uma forma
de… sei lá… não ter trabalho? Já a 5ª série trouxe os olhos verdes. Eram verdes
mesmo? Ou eu só estava prestando atenção demais neles? (Tive uma fase de
desenhar olhos, então pode ter sido isso.) Teve outras coisas também, mas a
memória resolveu focar no que era mais cinematográfico.
A verdade
é que a escola ficou para trás, e eu também fiquei bem feliz de deixá-la lá,
quietinha no passado, sem reencontros (embora tenha tido um inesperado alguns
anos atrás), sem grupos de WhatsApp, sem “vamos marcar”?.
Não tive
mais contato com ninguém daquela época. E, sinceramente, talvez seja por isso
que hoje eu tenha tolerância zero para comportamento nível 5ª série. Um
pouquinho eu aguento, vai, ninguém é de ferro. Mas exagerou, eu já começo a
ouvir o barulho da bolada vindo em câmera lenta.
Hoje,
modéstia à parte, me considero alguém que consegue revisitar as gavetas sem
desmoronar (muito, pelo menos😉).
Alguém que, mesmo com cicatrizes, ainda tem fome de vida. E fome grande.