Existem assuntos que, se a gente pudesse, deixaria guardados numa caixinha com aviso de “abrir por sua conta e risco”. Política, sexualidade, futebol e religião, esse quarteto que, dependendo da companhia, vira tempestade em copo d’água ou copo voando pela sala. Pois bem, hoje resolvi abrir a tal caixinha. Prometo que sem intenção de doutrinar ninguém; no máximo, doutrinar meus próprios pensamentos, que já escapam pelos poros há anos.😂
Mas tenho
plena, ou não tão plena assim, consciência que falar de religião é um dos temas
complexos e mais polêmicos que possa existir então tentarei abordar com um
pouco mais de suavidade embora não garanta muito a repercussão, se tiver alguma
😉
Minha
relação com religião sempre foi uma espécie de pergunta lançada ao vento: Alguém
me ouve? Ou...algo? Na verdade, sempre, ou quase sempre, senti uma força ou
uma energia que não consigo explicar nem se quisesse. Mas religião, formalmente
falando, nunca foi exatamente meu endereço fixo.
Fui batizada
na igreja católica com direito a padrinhos, vela, roupinha bonitinha, tudo como
manda o figurino. Cresci indo pouco, bem pouco pelo que me lembro, à igreja, às
vezes acompanhando minha vó aos domingos (o que mais gostava era passar um
tempo com ela) e já acompanhei outras pessoas também, não só em igrejas católicas,
sempre com respeito, curiosidade e um pezinho atrás, porque algumas
experiências... digamos que não foram das mais acolhedoras.
E é aí que
a conversa fica delicada. Palavras ferem. E eu já saí ferida algumas vezes e,
acredito que não tenha sido só eu. Não por Deus, não por fé, mas por gente.
Gente que, por algum motivo, achou que religião era lente para enxergar minha
deficiência. Ou pior: para explicá-la. Como se a ausência de religião somada à
presença de uma deficiência fosse uma equação que dissesse algo sobre mim. Dá
para entender o incômodo?
Respeito a
religião de cada um, a fé de cada um. Sei que para muita gente a religião é
abrigo, é colo, é bússola em dias nublados. Eu só encontrei meus abrigos em
outros lugares, na arte (principalmente na de escrever 😊), em algumas pessoas, no
silêncio, às vezes até no caos. E tudo bem. Cada um se agarra ao que faz
sentido.
O que não
faz sentido é usar fé como arma, diagnóstico ou julgamento. Por isso, decidi
não me forçar a nada que não me acolha. A espiritualidade, essa sim, continua
aqui comigo, do meu jeito torto, livre, meio bagunçado. Talvez seja isso: minha
religião é essa conversa interna que tenho com o mundo, com o invisível, comigo
mesma.
No fim das
contas, sigo acreditando em algo, mesmo que eu não saiba nomear. E sigo
acreditando nas pessoas, apesar de algumas tropeçadas. Porque, no fundo, a
gente só quer isso: ser visto sem rótulos, sem explicações mágicas, sem teorias
mirabolantes. Só visto. E talvez, só talvez, isso já seja uma forma de fé.