quinta-feira, 30 de abril de 2026

Como é, moça?

 Não sou de polemizar, muito menos de causar nenhum desconforto, mas entre o dia 27 e 29 de abril desse ano, enquanto participava do 3º Congresso Brasileiro Estudos sobre as Pessoas com Deficiência e Demandas Psicossociais (tinha participado só do 1º, em 2024), no formato online, algo me cutucou por dentro. Daqueles cutucões que fazem a gente levantar a sobrancelha e pensar: ué, será que só eu ouvi isso?

Estava lá, caderninho aberto, como sempre faço em cursos online, anotando impressões, frases soltas, ideias que me atravessam. No primeiro dia, ouvi a seguinte pérola: “Esqueçam aquela ideia de que deficiência é sinônimo de limitação”. Não pude interromper, como numa aula mesmo, mas pensei bem alto dentro de mim: Calma, moça… não existe limitação?  Eu convivo com as minhas diariamente. Até converso como elas de vez em quando. Aprendo com elas.

As limitações que me acompanham desde o instante que nasci, hoje percebo que não me limitam, me desafiam. Sei e se não sei aprendo que, se não consigo de um jeito, tento de outro. O que não pode e não deve é transformar limitação em sinônimo de incapacidade. Aí, sim, a gente tropeça no preconceito alheio.

Tenho uma deficiência, mas não é ela que me tem. Isso precisa ficar bem claro, por mais difícil que pareça e mesmo quando o mundo insiste em embaralhar as coisas.

O congresso foi ótimo, abordou temas importantes, dos quais gostei bastante, mas lá estava eu, fiel ao meu caderninho, anotando tudo o que fazia sentido, e o que não fazia também😉Afinal, convivo com minha deficiência desde pequenininha e ela é minha, não no sentido de posse, mas de intimidade. Pois existe uma complexidade em vivenciar a deficiência que que não cabe em slide, mesa-redonda ou discurso empolgado. Que mesmo cheio de gente ao nosso redor, muitas vezes travamos batalhas silenciosas: o sentimento de inadequação que aparece sem ser convidado, a luta diária pelo direito de existir e ocupar espaço, a insistência em não deixar que o mundo nos diminua. É um trabalho que, no fim das contas, fazemos muito mais conosco do que com qualquer outra pessoa. E isso é mais conosco mesmo.

E talvez seja por isso que aquela frase me intrigou tanto. Não porque estivesse errada, mas porque parecia ignorar que, antes de superações e discursos bonitos, existe vida real. E na vida real, limitação existe, sim. O que não existe é desistência.

E o resto do congresso? .... Ah, o resto, deixo para os próximos capítulos. Ou não...Sabe, foram três dias de congresso, mas o que realmente mexeu com minhas estruturas foi isso 😊

 

 

 

                                                                                              

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Deixar para trás e agradecer

Há coisas que, quando olho para trás, até agradeço. Coisas que a gente só entende quando olha pelo retrovisor da vida. E olha, no meu caso, esse retrovisor já meio embaçado, precisando de um limpa-vidros emocional. Mas funciona, na hora, parecem tragédias pessoais, injustiças cósmicas, puxões de tapete cuidadosamente coreografados pelo destino.

O que hoje chamaríamos de livramento (na minha época acho que não era esse nome não 😉), mas o efeito é o mesmo: a vida tira algo da sua frente como quem recolhe um copo prestes a cair da mesa. A gente reclama, claro. Dói, mas faz parte do show. Só depois a gente percebe que esse copo já estava trincado, e faz tempo.

Virar a página não é tão simples quanto parece. Não é como nos livros, onde você pode deixar um marcador de página e voltar quando quiser. E arrancar um capítulo inteiro dói, dói como tirar Band-Aid de pele sensível. Parece legal, poético, mas quem inventou essa metáfora do Band-Aid certamente nunca precisou arrancar nada que realmente importasse. Porque cada página que a gente arranca deixa uma cicatriz discreta, daquelas que só a gente sabe que existe, mas uma cicatriz que cicatriza com o tempo.

E vou confessar: eu, que sou bastante emotiva para algumas coisas, esquecer de certas coisas ou até mesmo de pessoas, não tem sido um processo fácil. Na verdade, quase nunca é, mas acho que chega um momento que temos que dar marcha ré para não doer mais ainda.

Doeu um pouco, mas preciso pensar que foi melhor assim, acho que se pensar de outra forma enlouqueço. Ainda assim, a gente segue. Meio mancando, meio teimando, mas segue.

E, no caminho, no meio desse processo, a gente descobre umas verdades incômodas. Por exemplo: aquela massagemzinha no ego quando alguém do passado dá sinais de vida. É doce, claro. Mas é doce tipo bala que a gente ganha na saída do consultório, inesperada, simpática, mas totalmente dispensável. A gente não precisa disso para seguir respirando, embora o ego insista em dizer que sim.

No fim das contas, virar a página talvez seja mesmo o melhor que pode acontecer. Não porque o passado era ruim, às vezes até era ótimo, mas porque a gente merece histórias novas. E porque, convenhamos, tem coisa que só faz sentido quando vista de longe, com a serenidade de quem já sobreviveu ao próprio caos.

"Livramento" é uma palavra bonita. Não só pelo som, mas pelo que carrega: a ideia de que a vida, às vezes, sabe mais do que nós. E que, de vez em quando, o maior favor que ela pode nos fazer é tirar da nossa mão aquilo que jurávamos ser essencial.

Agradecer vem depois. Sempre vem. É só questão de tempo.

E olha... enquanto escrevo isso, parece mais uma confissão, e talvez até seja... Sabe, escrever o que sinto tem disso uma espécie de purgação, como se jogasse tudo numa fogueira imaginária e assistisse queimar.

Claro que ainda tenho algumas inseguranças e tal, não sou tão bem resolvida quanto às vezes pareço ser, mas estou tentando e espero sinceramente estar conseguindo...até para o meu próprio bem😊

 

 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Um tal documentário...

Que diabos é machosfera? Juro que essa palavra me bateu como um tapa de luva de pelica. É um bando de macho fazendo macheza, batendo no peito, se gabando aos quatro ventos? 😂Ri sozinha achando que era tipo pegar todos os héterotop, esquerdomacho, egos inflados e afins.... e colocar tudo no mesmo balaio só (ou numa esfera, tipo panelinha, bem fechada para mais ninguém entrar). Esses estereótipos de masculinidade tóxica.

Isso tudo porque, há um tempinho, assisti a um documentário chamado Luis Theroux: Por Dentro da Monosfera. Confesso que não me interessei muito de cara (talvez tenha sido o título ou o fato de ser documentário, que não costuma estar no meu repertório). Mas resolvi dar o benefício da dúvida.

A capa ou cartaz do documentário já te diz alguma coisa (pelo menos para mim), o cara fortão, musculoso, dando uma chave de braço nesse Louis...hum...curti não. Mas respira e vamos tentar olhar com olhos de estudante de psicologia, mesmo que meu outro olhar, o de simples mortal leiga, não tenha gostado nada do que viu.

O documentário mergulha em temas como red pill (sim, aquela do Matrix), papéis de gênero, masculinidade e outras coisas que para mim não fazem sentido nenhum. É como entrar em um universo paralelo onde um grupo discute “o que é ser homem” com a solenidade de quem está redigindo a Constituição do próprio ego.

E eu ali, assistindo, tentando entender, tentando não rir daqueles absurdos que estava ouvindo.

Sou muito a favor de podcasts, transmissões ao vivo, influenciadores, acho que até podem ser instrutivos e divertidos.... A questão é que acho que algumas pessoas têm exagerado um pouco na dose e passa ser uma espécie de coquetel meio tóxico, meio inflamável, sabe.

Aí, não pude deixar de pensar: esse universo conversa com o universo das deficiências? Pior que acho que sim. E não só conversa, às vezes grita, pode sair rebaixamento, xingamento e sei lá mais o que... Porque machosfera fere. Pode ferir mulher, gay, idoso, pessoas com deficiência e outras camadas. No documentário o foco parece se mais mulheres mesmo, mas deu para ver que o alcance poderia ser maior. E o mais assustador (mais sinceramente não me surpreendeu muito), que tem gente que não só aceita, mas compactua, reproduz, aplaude. E não é só homem não tá, mulheres, jovens...meu Deus do céu.

Saí do documentário com a sensação de que a tal machosfera não é uma esfera, mas um eco. Um eco que se repete, se amplifica e, quando encontra terreno fértil, vira crença. E eu, do lado de fora, sigo me perguntando se eles percebem que dá para ser homem sem tudo isso.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Psicologia das… necessidades especiais?

 No dia 17 de abril de 2026, aqui em Brasília mesmo, ouvi algo que me chamou muita atenção: psicologia das necessidades especiais. Achei tão engraçado. Não engraçado de deboche, mas de surpresa e curiosidade, pois nunca tinha ouvido falar em uma disciplina dessa, e olha que eu faço psicologia 😉

E fui pensar.... bater cabeça mesmo...pesquisar, pesquiso primeiro na minha cabeça, (como se fosse uma enciclopédia, mas é só achismo mesmo 😅) e depois na internet. E, cheguei à seguinte conclusão totalmente passível de estar errada, mas é minha, então vai assim mesmo: essa psicologia das necessidades especiais parece um pouco com ACP (Abordagem Centrada na Pessoa), que aliás todas as abordagens deveriam ser centrada na pessoa, mas aí já estou aloprando demais 😂

O fato é que, do que jeito que eu ouvi, as duas coisas pareciam se abraçar, se complementar, pelo menos na minha cabeça de estudante que ainda está tentando entender onde cada teoria se encaixa. Não sou uma profunda conhecedora de nenhuma abordagem da psicologia, até porque isso leva tempo e nem formada eu sou ainda, mas sinto que ambas tem esse perfume de humanismo, de olhar o sujeito para além do seu diagnóstico. E, futucando um pouco mais aqui e ali, as duas são compatíveis no sentido de defenderem o olhar para o ser humano em sua totalidade.

Sou impressionável para algumas coisas. Sou sensível e emotiva, dessas que se comovem com palavras, ideias e, às vezes, pessoas (mas esse segundo não quero falar agora, pode ser em outro capítulo talvez😉). O nome Psicologia das Necessidades Especiais me chamou particularmente a atenção porque, rebobinando a fita, lá em 1990, “necessidades especiais” era como se referiram a uma pessoa com deficiência, se usava portador de necessidades especiais (que bom que mudou, ufa!). Eu, por exemplo, hoje em dia o que eu porto no máximo um sorriso, quando estou de bom humor, no rosto e minha necessidade (essa sim, muito especial) é ser respeitada.

E aí, fiquei pensando: se isso era o nome de uma disciplina, que necessidade especiais seriam essas? Porque hoje só consigo pensar nas necessidades que qualquer pessoa possa ter, tendo uma deficiência ou não. Claro que, tendo uma circunstância diferenciada de uma pessoa sem deficiência, há algumas necessidades a mais que outras, mas, não sei se podemos classificar como especiais não, para mim são necessidades básicas.  

Talvez eu deva pesquisar mais, saber com exatidão o que é ou era, essa psicologia ai que ouvi e me deixou mais curiosa do que já sou 😉

 

 

sábado, 18 de abril de 2026

Crushes...

Christmas crush, easter crush, birthday crush…. I like these titles, it´s funny, all dough I prefer one at the time or the same in all the festivities😉
I had a few crushes before and hope I have a few more in my life, because there's nothing like those 
butterflies in the stomach to remind us that we're still alive, or at least functioning It’s exciting and a 
little bit scary at the same time, especially in my reality. 
Que chique, escrevendo em inglês só pra dar aquele charme internacional ao relato! 😄

Pois é... confesso que “crush” soa mais bonito que “paixonite”. Embora já tenham me dito que Crush
era o nome de um refrigerante lá pelos anos 70/80. Fazer o quê. Não tenho crush em refrigerante, 
só em pessoas mesmo, tá? Só para deixar claro, antes que venham com alguma piadinha.
O máximo que posso sentir por uma bebida é sede.😂
Bom, a verdade é que relacionamentos ou até ter um crush é tão excitante, tão bonito né...até parece que a gente ganha asas e sai voando... o X da questão é quando essas asas vêm sem manual de
instruções e o pouso não é garantido, em alguns casos, esses voos não precisam ser até o chão né.... 
Calma, eu explico! Nem todo mundo encara de peito aberto relacionar-se com alguém 
que foge do padrão, né? Demorei para aceitar que, às vezes, o maior desafio não era conquistar o crush, 
mas sobreviver ao julgamento alheio. Demorei para aceitar e entender a ideia do que poderia enfrentar, 
por assim dizer. Mas não dava para inventar um método de rejeição gentil? Só para evitar feridas 
profundas...😂
Já escrevi e falei sobre isso algumas vezes, acho, com outros títulos, outras palavras e outros enredos. 
O sentimento, porém, segue igual: cansaço misturado com frustração, mas sempre com aquela 
pitada (generosa) de esperança. Amante dos amores e dos crushes, mesmo que o universo insista 
em me presentear com algumas paixões não correspondidas que, convenhamos, são um clássico 
da vida moderna. 
Uma história feliz por favor? Por exemplo, foi um texto que, digamos, foi um crush que deu 
certo por um instante até virar só mais um episódio da minha série de idealizações românticas. Foi
também minha relação com idealizações românticas e tal.😏
Certa vez declarei numa rede social que, se aquilo que ouvi realmente tivesse abalado minha autoestima, 
estaria perdida. É claro que no primeiro momento, claro que aquilo me afetou, afinal sou daquelas 
que demonstra afeto (quando gosto falo mesmo, acho que até demais....paraaaaaaaaaaaaaaaaamenina!) 
em volumes impróprios para menores😂, mas chega uma hora que a gente cansa. Cansa de justificar-se, 
de explicar-se, de provar que merece ser vista além do óbvio. Cansa de lidar com gente que acha que 
limitação é incapacidade, diferença é desinteresse, humanidade é fragilidade. 
E aí, nesse cansaço, nasce uma força estranha. Uma força que diz: “Eu continuo tendo crushes, sim. 
Continuo me apaixonando, sim. Continuo voando, sim”. Às vezes caímos em ciladas emocionais...
não tem bula que explique né...  
Porque no fim das contas, crush é isso: um voo curto, um friozinho na barriga, um sorriso besta 
no meio da rua. Mas também é um lembrete de que eu posso, e devo, gostar de alguém sem me diminuir
para caber no olhar de ninguém.
E se não der certo? Sem crise. Reajusto as asas, sacudo a poeira emocional, tomo um shot de coragem…
e sigo. Mesmo que possa demorar um pouco 😉 Porque a vida é longa, os feriados são muitos, 
e eu ainda tenho vários crushes pra viver...espero! 😉
 


quinta-feira, 16 de abril de 2026

A religião e eu

Existem assuntos que, se a gente pudesse, deixaria guardados numa caixinha com aviso de “abrir por sua conta e risco”. Política, sexualidade, futebol e religião, esse quarteto que, dependendo da companhia, vira tempestade em copo d’água ou copo voando pela sala. Pois bem, hoje resolvi abrir a tal caixinha. Prometo que sem intenção de doutrinar ninguém; no máximo, doutrinar meus próprios pensamentos, que já escapam pelos poros há anos.😂

Mas tenho plena, ou não tão plena assim, consciência que falar de religião é um dos temas complexos e mais polêmicos que possa existir então tentarei abordar com um pouco mais de suavidade embora não garanta muito a repercussão, se tiver alguma 😉

Minha relação com religião sempre foi uma espécie de pergunta lançada ao vento: Alguém me ouve? Ou...algo? Na verdade, sempre, ou quase sempre, senti uma força ou uma energia que não consigo explicar nem se quisesse. Mas religião, formalmente falando, nunca foi exatamente meu endereço fixo.

Fui batizada na igreja católica com direito a padrinhos, vela, roupinha bonitinha, tudo como manda o figurino. Cresci indo pouco, bem pouco pelo que me lembro, à igreja, às vezes acompanhando minha vó aos domingos (o que mais gostava era passar um tempo com ela) e já acompanhei outras pessoas também, não só em igrejas católicas, sempre com respeito, curiosidade e um pezinho atrás, porque algumas experiências... digamos que não foram das mais acolhedoras.

E é aí que a conversa fica delicada. Palavras ferem. E eu já saí ferida algumas vezes e, acredito que não tenha sido só eu. Não por Deus, não por fé, mas por gente. Gente que, por algum motivo, achou que religião era lente para enxergar minha deficiência. Ou pior: para explicá-la. Como se a ausência de religião somada à presença de uma deficiência fosse uma equação que dissesse algo sobre mim. Dá para entender o incômodo?

Respeito a religião de cada um, a fé de cada um. Sei que para muita gente a religião é abrigo, é colo, é bússola em dias nublados. Eu só encontrei meus abrigos em outros lugares, na arte (principalmente na de escrever 😊), em algumas pessoas, no silêncio, às vezes até no caos. E tudo bem. Cada um se agarra ao que faz sentido.  

O que não faz sentido é usar fé como arma, diagnóstico ou julgamento. Por isso, decidi não me forçar a nada que não me acolha. A espiritualidade, essa sim, continua aqui comigo, do meu jeito torto, livre, meio bagunçado. Talvez seja isso: minha religião é essa conversa interna que tenho com o mundo, com o invisível, comigo mesma.

No fim das contas, sigo acreditando em algo, mesmo que eu não saiba nomear. E sigo acreditando nas pessoas, apesar de algumas tropeçadas. Porque, no fundo, a gente só quer isso: ser visto sem rótulos, sem explicações mágicas, sem teorias mirabolantes. Só visto. E talvez, só talvez, isso já seja uma forma de fé.

terça-feira, 14 de abril de 2026

Fome de Vida (e Outras Indigestões)

Tenho fome de vida... Daquela vida suculenta, bem temperada, servida em porções generosas e sobremesa incluída. Mas a verdade é que às ela vem temperada com umas pimentas que ninguém pediu. Arde, incomoda, dá vontade de reclamar com o gerente.  Mas não desisto não, mesmo que ela não tenha sido muito gentil comigo... Mesmo que pessoas não tenham sido gentis...

Mas a vida me deu e tem dado material para trabalhar. E olha que material não me falta...dá só uma olhada nos que vem a seguir:

Outro dia, sem aviso prévio, porque memórias inconvenientes nunca batem na porta, estive pensando, não sei exatamente por que, nos episódios de bullying que me vieram a mente há um tempo. Minhas gavetas internas se abriram como quem diz: “surpresa, voltei!”, e de lá saíram de dentro duas lembranças tão fortes quanto uma bolada de queimada no rosto... ambas da minha versão ensino fundamental. Por mais que aquela versão ainda habite em mim, como tudo ao longo do tempo muda e evolui, também passei por essa transformação, hoje já um pouco de cabelos grisalho e com machucados e cirurgias, mas confesso que ter de volta tais lembranças já consigo encontrar outas reações dentro de mim.

Percebi que hoje eu reajo diferente. Não porque ficou leve (trauma não vira pluma) mas porque eu virei outra. Cresci, mudei, evoluí, descasquei umas camadas, coloquei outras. A versão fundamental ainda existe, mas agora ela divide espaço com alguém que sabe olhar para trás sem se perder lá.

Não se engane, não foi legal na época e com certeza não é agora. Não estava preparada para sua volta, e definitivamente não estava na minha programação do dia. Mas já que apareceram, resolvi não expulsá-las. Quem sabe não viram material criativo? Vai que rendem uma crônica (Aliás, já renderam: o texto “A gangue do deboche”. Obrigada, memórias inconvenientes, pela colaboração involuntária.)

Hum... E aí, no meio desse revival inesperado, me peguei pensando nas temidas, para mim pelo menos, 3ª e 5ª série. Temida por alguns. Ou só por mim. Talvez só por mim mesmo, porque cada um sabe onde o calo apertou e onde o tênis escolar machucou.

E, claro, como toda boa memória inconveniente, ela trouxe companhia: A 3ª série trouxe o isolamento dos colegas. Se fosse hoje, talvez eu até agradeceria a distância, só não precisava ser com tanta crueldade. Dividiram a sala para “não pegar” (pegar o quê? A babaquice deles?). Na educação física, ninguém me escolhia para nada. E alguns professores achavam que me dar tarefas “fáceis” era uma forma de… sei lá… não ter trabalho? Já a 5ª série trouxe os olhos verdes. Eram verdes mesmo? Ou eu só estava prestando atenção demais neles? (Tive uma fase de desenhar olhos, então pode ter sido isso.) Teve outras coisas também, mas a memória resolveu focar no que era mais cinematográfico.

A verdade é que a escola ficou para trás, e eu também fiquei bem feliz de deixá-la lá, quietinha no passado, sem reencontros (embora tenha tido um inesperado alguns anos atrás), sem grupos de WhatsApp, sem “vamos marcar”?.

Não tive mais contato com ninguém daquela época. E, sinceramente, talvez seja por isso que hoje eu tenha tolerância zero para comportamento nível 5ª série. Um pouquinho eu aguento, vai, ninguém é de ferro. Mas exagerou, eu já começo a ouvir o barulho da bolada vindo em câmera lenta.

Hoje, modéstia à parte, me considero alguém que consegue revisitar as gavetas sem desmoronar (muito, pelo menos😉). Alguém que, mesmo com cicatrizes, ainda tem fome de vida. E fome grande.