sexta-feira, 3 de abril de 2026

Parque da Jú

 Olha que chique, descobri que havia um parque de diversões dentro de mim. Não daqueles com filas intermináveis e ingressos caros, mas um parque vitalício, carimbado no nascimento, onde ninguém pode me expulsar😊. Um espaço secreto, íntimo, em que as atrações mudam conforme o humor do dia.

Às vezes, a mente vira uma montanha-russa: sobe devagar, despenca derepente, dá voltas inesperadas. O coração grita como quem está no barco pirata (barco viking, meu favorito), balançando entre o medo e a adrenalina. E, claro, não faltam os carrinhos bate-bate, só que aqui eu adapto, tentando não me chocar tanto, equilibrando para não sair com hematomas emocionais e, (alguns físicos também😉).

É engraçado como, mesmo sendo invisível, esse parque é o cenário dos meus dias. Cada brinquedo representa um desafio, uma alegria, uma história diferente. Tem dia que só quero passear pela calmaria do carrossel, outros eu encaro a fila da montanha-russa com coragem renovada.

Mas não pense que é só chegar e entrar. No meu parque, não basta pagar o ingresso. É como naquela música da Marisa Monte, o “infinito particular”: só quem eu deixo atravessa os portões. Porque esse espaço é íntimo, é meu, e nele cada atração revela um pedaço da alma.

Entre risos e vertigens, sigo descobrindo que viver é brincadeira séria nesse parque invisível. Um parque que, apesar dos sustos, insiste em me lembrar que a vida é feita de altos, baixos e surpresas, e que o espetáculo nunca fecha as portas.

E as outras atrações? Um carrossel, roda gigante, a casa dos espelhos... Esta última é a mais desafiadora. Nela, não vejo apenas reflexos: vejo cicatrizes, marcas novas, inseguranças que surgem como brinquedos recém-instalados. É um labirinto de imagens onde meu equilíbrio tenta se equilibrar, para não criar novos machucados e nem incômodos.

Talvez não dê para explicar direito, mas é assim que caminho: entre o riso e o susto, entre o reflexo e a vertigem, aprendendo que meu parque de diversões é também meu mapa da vida. Bom, atualmente, convivendo com minhas singularidades, percebo que esse parque adiciona todos os dias uma emoção nova, inseguranças novas.

Se você leu até aqui, talvez também tenha reconhecido algum brinquedo desse parque dentro de si. Quem sabe, no fim das contas, todo mundo carrega um em silêncio, com atrações únicas, esperando a coragem de viver cada experiência. E é esse convite para brincar, sentir e se conhecer que deixo aqui: descubra seu parque, valorize seu ingresso, e aproveite o espetáculo diário de ser quem se é.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Qual será a próxima história?

 Hum... o que escrever?😶 Ou como dizia no filme Christopher Robin: “that to do..what to do...(o que fazer...)  Essa pergunta me acompanha como uma sombra leve, às vezes quase invisível, mas sempre presente. A inspiração não chega como nos filmes, com trilha sonora e iluminação perfeita. Ela é mais como uma brisa: ora suave, ora imperceptível, mas sempre ali, se eu parar para sentir. Às vezes um roteiro ajuda... Se bem que, para os vídeos (pouca coisa) que fiz no Instagram, nenhum teve roteiro: só saí falando o que queria falar e pronto. Claro que, no caso de vídeos, tem a parte da edição e tudo mais que precisa para postar um vídeo...

Nesse domingo, dia 29 de março, assisti a uma peça que acabou me trazendo algumas sensações que confesso nunca ter pensado antes e, para quem gosta de escrever como eu, uma aspirante a escritora que aparentemente mora dentro de mim, já começou a “sonhar acordada”. E se... Pera aí, parem as máquinas e rebobina a fita...

Lembram do monólogo “fragmentos de mim”? Pois, tinha 23 anos quando escrevi e apresentei. Agora, aos 40, não sei o que colocaria (até porque não sou escritora e naquela época tinha meu professor para me guiar). Enfim...boa para frente que atras vem gente! Hoje, aos 40 anos, percebo que os fragmentos mudaram de lugar. Alguns se perderam, outros se transformaram, e muitos eu finalmente consegui deixar para trás. Não porque deixaram de existir, mas porque já não me serviam mais. As coisas que me incomodavam antes, já não me incomodam tanto. Não vou tapar o sol com a peneira, é claro mas acredito que depois de um tempo e de muitooooooooooooooooooo pensar e repensar em algumas coisas e, claro um pequeno help aqui e outro acolá, fui percebendo que os incômodos até podem existir ainda um pouco mas mudaram de lugar, foram para outras caixas, outras tirei o pó e vi que já não cabem nas caixas que os colocava mais e finalmente consegui me desapegar (espero😂)...Mas é um processo né e, dificilmente esse processo é tranquilo viu. Na maioria das vezes é doído e costuma deixar marcas que ninguém vê.

Uns 16 anos depois, já formada e agora na luta para terminar a segunda graduação, como recomeçaria esse monologo? Hum... O que escrevi lá em 200 e bolinha não deixaram de ser verdade, em partes...Algumas se transformaram, evoluíram...assim como eu.

Vejamos e vamos analisar o que escrevi na época... O desafio de superar limites permanece tão verdadeiro quanto era no passado. Ainda hoje, é um processo que se revela difícil e, em muitos momentos, exaustivo. Chato para caramba, não vou mascarar! Hoje, assim como escrevi na época, sei mais do que nunca que é a mais pura verdade! O resto do que escrevi lá atrás ficaram lá...revisito de vez em quando mas acho que seria mais sábio se ficassem por lá mesmo. Até por que já penso de outra maneira o que já foi escrito, evoluiu.

Ressignificar... O palavra bonita! Chega até ser poético mas, não se enganem, por mais bonita que seja, essa danada pode ser bem dolorosa viu. Lembrar ou relembrar algumas coisas que às vezes até preferiríamos esquecer nem sempre é agradável mas em certos momentos acaba se tornando necessário, nem que seja para podermos ir para o próximo capitulo.

Não vou romantizar e nem me vitimizar, até porque não dá, não pode, não é produtivo sabe... A vida não é filme com trilha sonora perfeita. É mais como um ensaio sem roteiro, onde a gente improvisa, erra, repete, corta, edita... e segue.

Então, qual será a próxima história? Não vou continuar de onde parei pois não sou mais a mesma. Continuo Júlia, é fato mas as questões daquela jovem de 23 anos se transformaram em outras. Hoje carrego indagações novas, inquietudes diferentes, desejos, sonhos que ainda não sei nomear e, o que mais que tiver que vir...

Talvez a próxima história não precise ser grandiosa. Talvez baste ser verdadeira. Porque, no fim, escrever, ou viver, é isso: dar voz ao que pulsa dentro, mesmo que seja só um sussurro.

domingo, 29 de março de 2026

Sobre escolhas, títulos e o tal sentido das coisas - A vontade de escrever e o peso que tentam colocar nas histórias

Colecionar títulos (ás vezes sem título mesmo😂) é quase um hobby involuntário, daqueles que vão surgindo na vida sem pedir licença. Cada novo título, por mais simples que pareça, encontra espaço na minha história e acaba por refletir um pedaço do que sou. Não se trata de reconhecimento oficial, mas sim de pequenas marcas que vou acumulando, transformando em textos, trocando ideias e, muitas vezes, revivendo memórias. Tem gente que coleciona moedas, figurinhas, livros… eu coleciono (estou colecionando) títulos. Não diplomas, títulos mesmo. Aqueles que a gente inventa, se apega, transforma em trabalho, palestra, blog, artigo e, quando vê, já viraram quase uma identidade paralela.

O meu preferido? No limite do equilíbrio.

Ah… esse aí eu guardo no peito como quem guarda um bilhete antigo. E pensar que nasceu lá na 5ª série, num meio-pesadelo que virou frase, que virou válvula de escape, que virou blog. Quem diria!

E aqui estou eu de novo, mexendo nesse título como quem mexe em cicatriz antiga: com cuidado, mas com carinho.

Sempre quis escrever crônicas. Daquelas que misturam riso com reflexão, que contam a vida sem precisar transformá-la em drama épico. Porque, convenhamos, quando se tem uma deficiência, parece que o mundo inteiro espera que sua história venha com trilha sonora triste e a frase “exemplo de superação” colada na testa.

E eu? Eu só queria contar minhas coisas. Do meu jeito. Sem pesar, sem florear, sem transformar cada obstáculo em montanha do Himalaia.

Vou contar para vocês a sagas dos títulos e, como cada um virou um pedacinho de mim: Quando fui defender minha primeira monografia, lá em 2009, queria falar de inclusão escolar. Pesquisei, pensei, repensei… até que minha orientadora (obrigada, Kátia!) sugeriu olhar para a inclusão a partir da minha própria vivência. E assim nasceu: Inclusão – No limite do equilíbrio.

A primeira vez que usei “meu” título oficialmente. Um marco.

Mas antes disso já tinha escrito sobre teatro e deficiência, dois trabalhos, inclusive, porque estudante que é estudante sempre tem mais de uma entrega na mesma semana. E foram eles: O fazer teatral para pessoas com deficiência. (era para ser: o fazer teatral de acordo com as possibilidades de cada um, mas ficou muito grande. Os dois trabalhos foram com o mesmo título mas para matérias diferentes.

Depois veio a psicologia, e com ela a vontade de continuar o que já tinha começado. No primeiro estágio, inventei de falar sobre conscientização. Resultado?: Inclusão: Os Efeitos da Conscientização sobre o Comportamento de Universitários com Relação ao Bullying e, na mesma semana: Inclusão: O efeito do bullying na vida adulta

Um deles virou painel. Olha eu aí, toda exibida no corredor da faculdade😄

Em 2018, escrevi com uma professora (que depois virou orientadora) um trabalho sobre religião, identidade e mentalidade fundamentalista no Brasil: O “olhar” de psicólogos/as. A ideia inicial era falar sobre fundamentalismo religioso como forma de preconceito (como certas crenças ainda são usadas para justificar preconceitos contra pessoas com deficiência). Sim, isso existe. Sim, em pleno século XXI. Sim, dá vontade de revirar os olhos.

E em 2023, publiquei no CEUB o artigo que tanto gosto: No limite do equilíbrio: desconstrução do capacitismo. O título voltou, firme e forte. Teimoso, igual a mim 😊

Eu achava que monografia era uma matéria só. Ingênua. Virou projeto no primeiro semestre de 2025, monografia no segundo semestre, com o título: Vivendo em uma Sociedade Capacitista: Barreiras para a Inclusão.

E agora, já que ela não foi publicada, estou aqui planejando transformá-la em artigo. De novo. Sim, mais um.

Mas dessa vez quero outro título, sem perder a essência, claro. E também uma versão para o blog, bem mais curtinha, porque ninguém merece ler monografia no café da manhã.

E, no final das contas, acho que minha insistência com títulos é menos sobre palavras bonitas e mais sobre dar sentido ao caminho. Cada título é uma fase, uma descoberta, um pedaço da minha história que eu recuso transformar em drama, mas também não escondo.

E se tudo isso começou com uma frase escrita na 5ª série, talvez seja porque algumas coisas já nascem com destino certo (será que acredito em destino, gente!), mesmo que a gente só perceba muitos anos depois.

Agora sigo aqui, lapidando o próximo título.

Porque, no limite do equilíbrio, a gente sempre encontra um jeito de continuar escrevendo.

quinta-feira, 26 de março de 2026

Uma jornada pessoal de autodescoberta, convivência e expressão

 Nem tudo gira em torno da deficiência, mas ela faz parte de mim, veio para ficar. É uma presença constante, mas não define completamente quem sou.

Vejamos... Criei o blog em 2010, tinha 24 anos, então tive tempo de sobra para eu perceber, de novo, que nunca tinha tido um colega com deficiência, um amigo com deficiência. Queria escrever sobre a vida, e a vida, por acaso, incluía uma deficiência, e era apenas um dos aspectos presentes nesse cotidiano. Uma das minhas caraterísticas (morena, meio baixinha 😂, olhos castanhos etc., e com uma deficiência).

Durante minha trajetória escolar, exceto por uma breve passagem pela Hungria, que não era bem uma escola, sempre fui a única com uma circunstância diferenciada, para quem prefere termos mais rebuscados 😊.Gosto de pensar que era apenas eu, tentando acompanhar o ritmo dos outros no meu próprio compasso. Na faculdade, isso se repetiu: era a única aluna com deficiência, carregando não só a mochila, mas também o olhar curioso dos colegas. Não era maldade, ou assim eu esperava. Era novidade, e novidade, às vezes, pesa.

Atualmente, ou não atualmente assim, sabemos que existem vários tipos de deficiência, inclusive aquelas que ninguém vê. As deficiências ocultas sempre existiram, mas só recentemente começaram a aparecer, a se apresentar, dizendo “oi, eu também estou aqui”. Acho isso bonito.

Agora, na segunda faculdade, terminando (tomara que dê tudo certo), encontrei colegas também com deficiência e, foi curioso perceber como isso me trouxe uma sensação de pertencimento que eu nem sabia que estava faltando ou que estava procurando.

O blog nasceu do desejo de desmistificar. De mostrar, quer dizer, com palavras escritas e não só faladas, que posso fazer tudo que qualquer pessoa sem deficiência faz, do meu jeito, claro. Cada um tem o seu, e o meu jeito só tem algumas curvas diferentes no caminho.

E, ao longo dos anos ele, esse blog, se tornou uma espécie de diário virtual, onde a deficiência não é a única protagonista e sim uma pessoa que tem uma deficiência, mas que a deficiência não a tem... Veem a diferença?

Às vezes me exponho um pouco demais, mas nada sério ou comprometedor. Apenas a vida acontecendo. Já pensei em transformar essas crônicas em um livro, mas fica a dúvida: como seria, quais seriam os capítulos, por onde começar?

O mais difícil já tenho: minha voz. O resto é questão de organização e de deixar espaço para o que ainda está por vir😉

quarta-feira, 25 de março de 2026

Eternos “E se”...

 De vez em quando, sem aviso prévio, minha cabeça resolve brincar de roteirista. Abre uma gaveta imaginária, tira de lá um punhado de possibilidades e começa a espalhar pela mesa: e se isso tivesse acontecido? E se eu tivesse dito aquilo? E se aquela pessoa tivesse me visto de outro jeito? Os “e se” não têm a menor delicadeza. São como um elefante passeando numa loja de cristais, derrubando prateleiras com a maior naturalidade.

Culpa, talvez, de um filme que vi lá em 2010, Cartas para Julieta. Uma fala ficou presa em mim como chiclete no cabelo: “E” e “se”, duas palavras simples. Mas juntas… podem causar estragos inimagináveis.” Pois bem. Estamos em 2026 e eu ainda tropeço nessa frase como quem reencontra uma pedra velha no caminho, aquela que você jura que vai desviar do caminho mas acaba pisando.

Cresci consumindo amor embalado para presente: filmes, músicas, novelas, histórias que prometiam um encontro perfeito com um homem perfeito, no momento perfeito. Só esqueceram de avisar um detalhe, um detalhe enorme, gritante, impossível de ignorar: aquele amor não era para mim. Era para mulheres sem deficiência. Para as outras. Para as que cabiam no molde.

E eu?

Onde eu entrava nessa vitrine?

Lembro de ter escrito, quando mais nova, “Uma história feliz, por favor?”. Hoje releio e penso: que tola. Mas talvez não fosse tolice. Talvez fosse só como me sentia na época, a esperança de quem ainda acreditava que o mundo podia me enxergar inteira.

As histórias românticas, as mais vendidas, as mais comentadas, raramente têm mulheres como eu. E por quê? Por que nossos corpos, nossas vidas, nossos desejos não cabem nesses roteiros? Por que, quando o amor é sobre nós, precisa virar superação, lição, drama?

Já suspirei por músicas, já me perdi em livros, já fui noveleira de carteirinha. E sempre voltava aquela pergunta incômoda, quase infantil, quase cruel: quando será minha vez?

E se os meninos que gostei me vissem além da minha deficiência?

E se me enxergassem como mulher antes de qualquer outra coisa?

E se… e se… e se…

Esses pensamentos ainda aparecem, mas hoje eles já não me paralisam. Incomodam, claro, como etiqueta de roupa pinicando no pescoço. Mas não me definem mais. Aprendi a não me medir pela régua dos outros, embora às vezes ainda tente, talvez por hábito antigo.

Nunca fui de dizer “eu te amo” por esporte. Essa frase, para mim, é quase um sacramento. Ou é verdade ou não é. Não existe meio-termo. Quando digo, é porque algo em mim se abriu, se entregou, se expôs. Mas quando desapego também....ixi!

E talvez por isso doa tanto quando zombam do que escrevo, do que sinto, do que deixo escapar nas palavras. Eu me exponho em tudo que faço, ou quase tudo😊, e rir disso é rir de mim.

O que sinto agora, por qualquer pessoa, não é cobrança, nem pedido, nem expectativa. É só um sentimento que existe. Que pulsa. Que me lembra que estou viva.

Que posso amar, mesmo que o mundo insista em me colocar fora das histórias de amor. O que atualmente está mudando viu, aos poucos, mas está😉

E talvez, só talvez, o maior “e se” da minha vida seja esse:

E se eu for, finalmente, a protagonista da minha própria história?

quinta-feira, 19 de março de 2026

Um Desafio Contínuo

 Equilibrar-se é, para mim, um exercício diário de paciência. Assim como ouvir sobre isso ainda. Não é novidade, eu sei, já falei disso antes, mas há temas que insistem em voltar, como se pedissem "um bis". E o equilíbrio, esse velho conhecido, é um deles. Por mais que eu me esforce, ele nunca está completamente sob meu comando. Melhorou, claro. Caio menos. Mas ainda não é algo que posso dizer que está no meu controle.

É cansativo admitir isso, especialmente depois de tantos avanços. Cansativo repetir, explicar, justificar. Cansativo sentir o corpo travar, os músculos reclamarem, o desconforto subir pelas costas enquanto tento me firmar em qualquer superfície que esteja ao alcance. E, no meio desse esforço silencioso, às vezes escapam sons, pequenos, agoniados, que despertam olhares preocupados ao redor. Não são pedidos de socorro; são válvulas de escape. Talvez nem eu entenda completamente, mas sinto que preciso deixar o incômodo sair de algum jeito. É como se o corpo pedisse para extravasar, para não guardar tudo ali dentro.

O corpo humano tem dessas ironias. É como um amigo antigo que conhece todos os nossos truques e, ainda assim, insiste em nos mostrar quem é que manda. Às vezes diverte; noutras, inquieta. O meu, ultimamente, tem preferido a segunda opção. E a origem dessa travessura mora no cerebelo, essa pequena estrutura que, desde o meu nascimento, carrega uma lesão e dita o ritmo da minha dança diária.

Sim, dança. Porque, querendo ou não, virei bailarina de uma coreografia que nunca ensaiei. O cerebelo cuida do equilíbrio, da coordenação, do jeito de caminhar. E eu, que jamais sonhei com palcos, só se for para teatro haha (que é minha formação), vivo sendo testada como se estivesse numa audição interminável.

Todos os dias acordo convocada para mais uma prova. Me equilibrar enquanto me desequilibro virou quase um esporte radical. E o mais curioso é que não posso culpar uma coreografia mal aprendida: nunca fiz curso, não tenho diploma, e ainda assim improviso passos que ninguém me ensinou.

O equilíbrio é um processo delicado. Sem uma estrutura firme, cada movimento parece uma aposta. Caminhar é como pisar num chão que muda de textura a cada instante. A gente tenta, respira fundo, inventa maneiras de seguir, e segue.

Brinco que vivo improvisando, mas talvez seja menos brincadeira e mais constatação. A vida exige que dancemos conforme a música, mesmo quando não sabemos a letra, o ritmo ou sequer o nome da canção. Inventar passos virou rotina. Criar estratégias no susto é meu cotidiano, vinte e quatro horas por dia, numa coreografia contínua, sem ensaio, sem plateia, mas cheia de persistência.

No fim das contas, talvez equilíbrio não seja a ausência de quedas, mas a coragem de continuar dançando, mesmo quando o chão insiste em balançar.

segunda-feira, 16 de março de 2026

Um relato pessoal sobre desafios, descobertas e adaptações

Não deve ser fácil descobrir uma deficiência. Quer dizer, imagino que não tenha sido. Eu estava lá, claro, mas não lembro de nada, só sei que alguma coisa deve ter acontecido para eu ter vindo assim, digamos, de fábrica. Congênita ou adquirida, pouco importa: o fato é que, em algum momento, alguém percebeu que eu era diferente dos outros. Mais do que eu gostaria.

O difícil mesmo, descobri depois, não foi nascer assim. Foi crescer assim. Porque crescer é, entre outras coisas, perceber. E eu percebia, às vezes cedo demais, que outras pessoas da minha idade, e até de idades bem diferentes, faziam coisas que eu simplesmente não conseguia fazer. Já tentei, juro que tentei, mas tem coisa que não dá mesmo. E aceitar isso é um processo que não vem com manual de instruções.

Recentemente, pensei em minha mãe e em como deve ter sido enfrentar uma nova gestação já convivendo com uma filha com deficiência. Essa dúvida ficou comigo por dias, como um objeto frágil que não sei onde apoiar.

Sou a primeira da família a nascer com uma deficiência. Já contei isso em “Os Souza”. E, até hoje, não faço ideia de como a notícia repercutiu entre eles. Imagino olhares trocados, silêncios longos, talvez alguma preocupação disfarçada de força. Mas ninguém nunca me contou, e eu também nunca perguntei. Aliás, até acho que perguntei, mas ...

O que sei, isso sim, com absoluta certeza, é que conviver com uma deficiência e me reconhecer além dela foi o que me salvou e tem me salvado desde então. Depois de algumas questões no meio do processo J. Foi o que me permitiu, por assim dizer, me “acostumar” a ela. Descobrir o que posso ou não posso fazer, e principalmente como fazer. Porque depender dos outros para sempre nunca esteve nos meus planos.

E assim sigo: meio torta, meio teimosa, completamente minha. De fábrica, sim, mas com muitas peças que fui aprendendo a montar sozinha ao longo do caminho.