domingo, 29 de março de 2026

Sobre escolhas, títulos e o tal sentido das coisas - A vontade de escrever e o peso que tentam colocar nas histórias

Colecionar títulos (ás vezes sem título mesmo😂) é quase um hobby involuntário, daqueles que vão surgindo na vida sem pedir licença. Cada novo título, por mais simples que pareça, encontra espaço na minha história e acaba por refletir um pedaço do que sou. Não se trata de reconhecimento oficial, mas sim de pequenas marcas que vou acumulando, transformando em textos, trocando ideias e, muitas vezes, revivendo memórias. Tem gente que coleciona moedas, figurinhas, livros… eu coleciono (estou colecionando) títulos. Não diplomas, títulos mesmo. Aqueles que a gente inventa, se apega, transforma em trabalho, palestra, blog, artigo e, quando vê, já viraram quase uma identidade paralela.

O meu preferido? No limite do equilíbrio.

Ah… esse aí eu guardo no peito como quem guarda um bilhete antigo. E pensar que nasceu lá na 5ª série, num meio-pesadelo que virou frase, que virou válvula de escape, que virou blog. Quem diria!

E aqui estou eu de novo, mexendo nesse título como quem mexe em cicatriz antiga: com cuidado, mas com carinho.

Sempre quis escrever crônicas. Daquelas que misturam riso com reflexão, que contam a vida sem precisar transformá-la em drama épico. Porque, convenhamos, quando se tem uma deficiência, parece que o mundo inteiro espera que sua história venha com trilha sonora triste e a frase “exemplo de superação” colada na testa.

E eu? Eu só queria contar minhas coisas. Do meu jeito. Sem pesar, sem florear, sem transformar cada obstáculo em montanha do Himalaia.

Vou contar para vocês a sagas dos títulos e, como cada um virou um pedacinho de mim: Quando fui defender minha primeira monografia, lá em 2009, queria falar de inclusão escolar. Pesquisei, pensei, repensei… até que minha orientadora (obrigada, Kátia!) sugeriu olhar para a inclusão a partir da minha própria vivência. E assim nasceu: Inclusão – No limite do equilíbrio.

A primeira vez que usei “meu” título oficialmente. Um marco.

Mas antes disso já tinha escrito sobre teatro e deficiência, dois trabalhos, inclusive, porque estudante que é estudante sempre tem mais de uma entrega na mesma semana. E foram eles: O fazer teatral para pessoas com deficiência. (era para ser: o fazer teatral de acordo com as possibilidades de cada um, mas ficou muito grande. Os dois trabalhos foram com o mesmo título mas para matérias diferentes.

Depois veio a psicologia, e com ela a vontade de continuar o que já tinha começado. No primeiro estágio, inventei de falar sobre conscientização. Resultado?: Inclusão: Os Efeitos da Conscientização sobre o Comportamento de Universitários com Relação ao Bullying e, na mesma semana: Inclusão: O efeito do bullying na vida adulta

Um deles virou painel. Olha eu aí, toda exibida no corredor da faculdade😄

Em 2018, escrevi com uma professora (que depois virou orientadora) um trabalho sobre religião, identidade e mentalidade fundamentalista no Brasil: O “olhar” de psicólogos/as. A ideia inicial era falar sobre fundamentalismo religioso como forma de preconceito (como certas crenças ainda são usadas para justificar preconceitos contra pessoas com deficiência). Sim, isso existe. Sim, em pleno século XXI. Sim, dá vontade de revirar os olhos.

E em 2023, publiquei no CEUB o artigo que tanto gosto: No limite do equilíbrio: desconstrução do capacitismo. O título voltou, firme e forte. Teimoso, igual a mim 😊

Eu achava que monografia era uma matéria só. Ingênua. Virou projeto no primeiro semestre de 2025, monografia no segundo semestre, com o título: Vivendo em uma Sociedade Capacitista: Barreiras para a Inclusão.

E agora, já que ela não foi publicada, estou aqui planejando transformá-la em artigo. De novo. Sim, mais um.

Mas dessa vez quero outro título, sem perder a essência, claro. E também uma versão para o blog, bem mais curtinha, porque ninguém merece ler monografia no café da manhã.

E, no final das contas, acho que minha insistência com títulos é menos sobre palavras bonitas e mais sobre dar sentido ao caminho. Cada título é uma fase, uma descoberta, um pedaço da minha história que eu recuso transformar em drama, mas também não escondo.

E se tudo isso começou com uma frase escrita na 5ª série, talvez seja porque algumas coisas já nascem com destino certo (será que acredito em destino, gente!), mesmo que a gente só perceba muitos anos depois.

Agora sigo aqui, lapidando o próximo título.

Porque, no limite do equilíbrio, a gente sempre encontra um jeito de continuar escrevendo.

quinta-feira, 26 de março de 2026

Uma jornada pessoal de autodescoberta, convivência e expressão

 Nem tudo gira em torno da deficiência, mas ela faz parte de mim, veio para ficar. É uma presença constante, mas não define completamente quem sou.

Vejamos... Criei o blog em 2010, tinha 24 anos, então tive tempo de sobra para eu perceber, de novo, que nunca tinha tido um colega com deficiência, um amigo com deficiência. Queria escrever sobre a vida, e a vida, por acaso, incluía uma deficiência, e era apenas um dos aspectos presentes nesse cotidiano. Uma das minhas caraterísticas (morena, meio baixinha 😂, olhos castanhos etc., e com uma deficiência).

Durante minha trajetória escolar, exceto por uma breve passagem pela Hungria, que não era bem uma escola, sempre fui a única com uma circunstância diferenciada, para quem prefere termos mais rebuscados 😊.Gosto de pensar que era apenas eu, tentando acompanhar o ritmo dos outros no meu próprio compasso. Na faculdade, isso se repetiu: era a única aluna com deficiência, carregando não só a mochila, mas também o olhar curioso dos colegas. Não era maldade, ou assim eu esperava. Era novidade, e novidade, às vezes, pesa.

Atualmente, ou não atualmente assim, sabemos que existem vários tipos de deficiência, inclusive aquelas que ninguém vê. As deficiências ocultas sempre existiram, mas só recentemente começaram a aparecer, a se apresentar, dizendo “oi, eu também estou aqui”. Acho isso bonito.

Agora, na segunda faculdade, terminando (tomara que dê tudo certo), encontrei colegas também com deficiência e, foi curioso perceber como isso me trouxe uma sensação de pertencimento que eu nem sabia que estava faltando ou que estava procurando.

O blog nasceu do desejo de desmistificar. De mostrar, quer dizer, com palavras escritas e não só faladas, que posso fazer tudo que qualquer pessoa sem deficiência faz, do meu jeito, claro. Cada um tem o seu, e o meu jeito só tem algumas curvas diferentes no caminho.

E, ao longo dos anos ele, esse blog, se tornou uma espécie de diário virtual, onde a deficiência não é a única protagonista e sim uma pessoa que tem uma deficiência, mas que a deficiência não a tem... Veem a diferença?

Às vezes me exponho um pouco demais, mas nada sério ou comprometedor. Apenas a vida acontecendo. Já pensei em transformar essas crônicas em um livro, mas fica a dúvida: como seria, quais seriam os capítulos, por onde começar?

O mais difícil já tenho: minha voz. O resto é questão de organização e de deixar espaço para o que ainda está por vir😉

quarta-feira, 25 de março de 2026

Eternos “E se”...

 De vez em quando, sem aviso prévio, minha cabeça resolve brincar de roteirista. Abre uma gaveta imaginária, tira de lá um punhado de possibilidades e começa a espalhar pela mesa: e se isso tivesse acontecido? E se eu tivesse dito aquilo? E se aquela pessoa tivesse me visto de outro jeito? Os “e se” não têm a menor delicadeza. São como um elefante passeando numa loja de cristais, derrubando prateleiras com a maior naturalidade.

Culpa, talvez, de um filme que vi lá em 2010, Cartas para Julieta. Uma fala ficou presa em mim como chiclete no cabelo: “E” e “se”, duas palavras simples. Mas juntas… podem causar estragos inimagináveis.” Pois bem. Estamos em 2026 e eu ainda tropeço nessa frase como quem reencontra uma pedra velha no caminho, aquela que você jura que vai desviar do caminho mas acaba pisando.

Cresci consumindo amor embalado para presente: filmes, músicas, novelas, histórias que prometiam um encontro perfeito com um homem perfeito, no momento perfeito. Só esqueceram de avisar um detalhe, um detalhe enorme, gritante, impossível de ignorar: aquele amor não era para mim. Era para mulheres sem deficiência. Para as outras. Para as que cabiam no molde.

E eu?

Onde eu entrava nessa vitrine?

Lembro de ter escrito, quando mais nova, “Uma história feliz, por favor?”. Hoje releio e penso: que tola. Mas talvez não fosse tolice. Talvez fosse só como me sentia na época, a esperança de quem ainda acreditava que o mundo podia me enxergar inteira.

As histórias românticas, as mais vendidas, as mais comentadas, raramente têm mulheres como eu. E por quê? Por que nossos corpos, nossas vidas, nossos desejos não cabem nesses roteiros? Por que, quando o amor é sobre nós, precisa virar superação, lição, drama?

Já suspirei por músicas, já me perdi em livros, já fui noveleira de carteirinha. E sempre voltava aquela pergunta incômoda, quase infantil, quase cruel: quando será minha vez?

E se os meninos que gostei me vissem além da minha deficiência?

E se me enxergassem como mulher antes de qualquer outra coisa?

E se… e se… e se…

Esses pensamentos ainda aparecem, mas hoje eles já não me paralisam. Incomodam, claro, como etiqueta de roupa pinicando no pescoço. Mas não me definem mais. Aprendi a não me medir pela régua dos outros, embora às vezes ainda tente, talvez por hábito antigo.

Nunca fui de dizer “eu te amo” por esporte. Essa frase, para mim, é quase um sacramento. Ou é verdade ou não é. Não existe meio-termo. Quando digo, é porque algo em mim se abriu, se entregou, se expôs. Mas quando desapego também....ixi!

E talvez por isso doa tanto quando zombam do que escrevo, do que sinto, do que deixo escapar nas palavras. Eu me exponho em tudo que faço, ou quase tudo😊, e rir disso é rir de mim.

O que sinto agora, por qualquer pessoa, não é cobrança, nem pedido, nem expectativa. É só um sentimento que existe. Que pulsa. Que me lembra que estou viva.

Que posso amar, mesmo que o mundo insista em me colocar fora das histórias de amor. O que atualmente está mudando viu, aos poucos, mas está😉

E talvez, só talvez, o maior “e se” da minha vida seja esse:

E se eu for, finalmente, a protagonista da minha própria história?

quinta-feira, 19 de março de 2026

Um Desafio Contínuo

 Equilibrar-se é, para mim, um exercício diário de paciência. Assim como ouvir sobre isso ainda. Não é novidade, eu sei, já falei disso antes, mas há temas que insistem em voltar, como se pedissem "um bis". E o equilíbrio, esse velho conhecido, é um deles. Por mais que eu me esforce, ele nunca está completamente sob meu comando. Melhorou, claro. Caio menos. Mas ainda não é algo que posso dizer que está no meu controle.

É cansativo admitir isso, especialmente depois de tantos avanços. Cansativo repetir, explicar, justificar. Cansativo sentir o corpo travar, os músculos reclamarem, o desconforto subir pelas costas enquanto tento me firmar em qualquer superfície que esteja ao alcance. E, no meio desse esforço silencioso, às vezes escapam sons, pequenos, agoniados, que despertam olhares preocupados ao redor. Não são pedidos de socorro; são válvulas de escape. Talvez nem eu entenda completamente, mas sinto que preciso deixar o incômodo sair de algum jeito. É como se o corpo pedisse para extravasar, para não guardar tudo ali dentro.

O corpo humano tem dessas ironias. É como um amigo antigo que conhece todos os nossos truques e, ainda assim, insiste em nos mostrar quem é que manda. Às vezes diverte; noutras, inquieta. O meu, ultimamente, tem preferido a segunda opção. E a origem dessa travessura mora no cerebelo, essa pequena estrutura que, desde o meu nascimento, carrega uma lesão e dita o ritmo da minha dança diária.

Sim, dança. Porque, querendo ou não, virei bailarina de uma coreografia que nunca ensaiei. O cerebelo cuida do equilíbrio, da coordenação, do jeito de caminhar. E eu, que jamais sonhei com palcos, só se for para teatro haha (que é minha formação), vivo sendo testada como se estivesse numa audição interminável.

Todos os dias acordo convocada para mais uma prova. Me equilibrar enquanto me desequilibro virou quase um esporte radical. E o mais curioso é que não posso culpar uma coreografia mal aprendida: nunca fiz curso, não tenho diploma, e ainda assim improviso passos que ninguém me ensinou.

O equilíbrio é um processo delicado. Sem uma estrutura firme, cada movimento parece uma aposta. Caminhar é como pisar num chão que muda de textura a cada instante. A gente tenta, respira fundo, inventa maneiras de seguir, e segue.

Brinco que vivo improvisando, mas talvez seja menos brincadeira e mais constatação. A vida exige que dancemos conforme a música, mesmo quando não sabemos a letra, o ritmo ou sequer o nome da canção. Inventar passos virou rotina. Criar estratégias no susto é meu cotidiano, vinte e quatro horas por dia, numa coreografia contínua, sem ensaio, sem plateia, mas cheia de persistência.

No fim das contas, talvez equilíbrio não seja a ausência de quedas, mas a coragem de continuar dançando, mesmo quando o chão insiste em balançar.

segunda-feira, 16 de março de 2026

Um relato pessoal sobre desafios, descobertas e adaptações

Não deve ser fácil descobrir uma deficiência. Quer dizer, imagino que não tenha sido. Eu estava lá, claro, mas não lembro de nada, só sei que alguma coisa deve ter acontecido para eu ter vindo assim, digamos, de fábrica. Congênita ou adquirida, pouco importa: o fato é que, em algum momento, alguém percebeu que eu era diferente dos outros. Mais do que eu gostaria.

O difícil mesmo, descobri depois, não foi nascer assim. Foi crescer assim. Porque crescer é, entre outras coisas, perceber. E eu percebia, às vezes cedo demais, que outras pessoas da minha idade, e até de idades bem diferentes, faziam coisas que eu simplesmente não conseguia fazer. Já tentei, juro que tentei, mas tem coisa que não dá mesmo. E aceitar isso é um processo que não vem com manual de instruções.

Recentemente, pensei em minha mãe e em como deve ter sido enfrentar uma nova gestação já convivendo com uma filha com deficiência. Essa dúvida ficou comigo por dias, como um objeto frágil que não sei onde apoiar.

Sou a primeira da família a nascer com uma deficiência. Já contei isso em “Os Souza”. E, até hoje, não faço ideia de como a notícia repercutiu entre eles. Imagino olhares trocados, silêncios longos, talvez alguma preocupação disfarçada de força. Mas ninguém nunca me contou, e eu também nunca perguntei. Aliás, até acho que perguntei, mas ...

O que sei, isso sim, com absoluta certeza, é que conviver com uma deficiência e me reconhecer além dela foi o que me salvou e tem me salvado desde então. Depois de algumas questões no meio do processo J. Foi o que me permitiu, por assim dizer, me “acostumar” a ela. Descobrir o que posso ou não posso fazer, e principalmente como fazer. Porque depender dos outros para sempre nunca esteve nos meus planos.

E assim sigo: meio torta, meio teimosa, completamente minha. De fábrica, sim, mas com muitas peças que fui aprendendo a montar sozinha ao longo do caminho.

 

quinta-feira, 5 de março de 2026

O Mundo Bizarro e Outras Pequenas Teimosias

 De vez em quando, alguém me olha com aquela certeza tranquila de quem acabou de descobrir uma verdade universal e diz que tudo parece fácil para mim. Mesmo quando está difícil. Nessas horas, fico sem saber se rio, se explico ou se deixo a pessoa acreditar nessa ficção confortável, afinal, cada um se agarra ao que precisa para dormir melhor. Mas sejamos francos: fácil, fácil mesmo, não é para ninguém. A vida não vem com manual, tutorial em vídeo ou garantia estendida. E, ainda assim, tem gente que insiste em colecionar tristezas como quem junta figurinhas repetidas.

Eu entendo. Quando o chão treme, parece que o mundo inteiro resolveu desabar justamente sobre a nossa cabeça. Procurar o lado bom vira quase um esporte radical, desses que exigem capacete e assinatura de termo de responsabilidade. Às vezes o tal lado positivo está tão escondido que parece pegadinha, e das ruins.

Mas, honestamente, já basta o que dói. Qual o sentido de mergulhar de cabeça no pessimismo? Não sou exemplo de serenidade, reclamo, resmungo, dramatizo com talento. Sou humana, afinal das contas, e não um Cyborg. Só aprendi, talvez por cansaço, que focar só no lado ruim não resolve nada. Só desgasta, como sapato velho que insiste em machucar o calcanhar.

Machado de Assis, com sua ironia afiada, já dizia que o mundo é feito de contradições. Não lembro as palavras exatas, mas lembro da sensação: aquela mistura de lucidez e sarcasmo que faz a gente rir enquanto engole seco. E confesso que ainda não sei o que pensar sobre isso. O que sei é que algumas coisas continuam me irritando profundamente, a hipocrisia, por exemplo, e a intolerância, que anda desfilando por aí com a naturalidade de quem acha que está sempre certa. Em certos dias, parece que estamos todos atuando num grande teatro do absurdo, só que ninguém avisou que estávamos no elenco.

O fato é que o mundo anda estranho. Valores invertidos, lógicas tortas, gente defendendo o indefensável com a convicção de quem recita receita de bolo. Vivo, portanto, num mundo bizarro. E, apesar das tentativas, há coisas que simplesmente não consigo compreender.

Ainda assim, sigo tentando. Talvez seja essa teimosia, essa mania de procurar sentido onde não há, que mantém a gente de pé, mesmo quando tudo parece fora do lugar.

De vez em quando, a vida nos empurra para encruzilhadas que ninguém pediu. Não são escolhas cinematográficas, com trilha épica e vento dramático. São decisões ásperas, chatas, que batem à porta sem marcar horário. Lembro, ou acho que lembro, porque a memória adora inventar, ou falhar, do dia em que decidi parar de dar tanta importância ao que dizem de mim. Não foi iluminação espiritual, nem epifania digna de livro de autoajuda. Foi só cansaço. Cansaço de carregar olhares, expectativas, comentários. A saúde mental agradeceu, mesmo que alguns incômodos continuem beliscando, como malas que nunca fecham direito.

O passado… ah, o passado. Todo mundo adora dizer que ele não define ninguém. É bonito, poético, quase libertador. Mas tem passado que gruda. Tem lembrança que se comporta como sombra: silenciosa, mas sempre ali. Traumas, complexos, feridas que fingimos não doerem mais, tudo isso se acumula como poeira em canto esquecido. E, sem perceber, reagimos ao presente com reflexos do que já passou.

É aí que entra a parte difícil: decidir. Decidir olhar para isso. Decidir fazer diferente. Decidir, às vezes, deixar ir.

Do complexo de patinho feio ao estranho no ninho, aquele mesmo, com Jack Nicholson, até a tentativa de construir uma inteligência emocional minimamente funcional, o caminho é cheio de tropeços. Tentativas e erros, porque acertar sempre seria pedir demais. Algumas decisões doem, outras só incomodam, mas todas empurram a gente para frente.

E talvez seja isso: continuar decidindo. Mesmo quando dá preguiça. Mesmo quando dói. Porque ficar parado também é uma decisão, e, quase sempre, é a que mais pesa.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

preconceito do preconceito

Tenho preconceito contra o preconceito. Pronto, falei! E não é figura de linguagem, não. É implicância mesmo, daquelas que fazem a gente franzir a testa e suspirar fundo, até para não perder o reú primárioK, como quem tenta entender o inexplicável.

Porque, sinceramente, que história é essa de diminuir alguém por ser quem é? Que mania irritante essa de classificar pessoas como se fossem produtos numa prateleira de supermercado. “Esse aqui serve, esse aqui não serve, esse aqui talvez, dependendo da promoção.”

É ou não é sintoma de ignorância?

O preconceito é isso: ignorância com diploma. Falta de informação, falta de empatia, falta de vontade de olhar o outro como gente. Falta, falta, falta. E, ainda assim, ele aparece por aí, desfilando com a maior naturalidade, como se fosse moda antiga que ninguém teve coragem de aposentar.

Mas eu também não vou bancar o iluminada. Se tem uma coisa que aprendi vivendo 24 horas por dia, todos os dias, a realidade de quem tenta enfrentar o preconceito de cabeça erguida (às vezes chora também mas faz parte) e também dentro da minha própria cabeça, e olha que é um lugar movimentado, é que ninguém está totalmente livre disso.

Todos temos nossos preconceitos, não vou ser hipócrita aqui né... Uns mais escondidos, outros mais teimosos. A diferença está no que fazemos com eles. (Parece fácil né...)

E aí entra a minha teoria, que desenvolvi entre um café e outro, observando o mundo com a paciência de quem tenta entender um meme antes de admitir que já está velho demais para isso: Existe o preconceituoso raiz e o preconceituoso Nutella.

Calma, eu explico. O preconceituoso raiz é aquele clássico, tradicional, quase folclórico. Cresceu ouvindo absurdos, nunca questionou nada, repete tudo como se fosse verdade absoluta. É o tipo que acha que opinião é escudo e que respeito é opcional. Ele não se esconde, não se envergonha, não se atualiza. É bruto, direto, e infelizmente muito eficiente em espalhar bobagens.

Já o preconceituoso Nutella… ah, esse é mais sutil. É o que diz “não sou preconceituoso, mas…”, e aí vem a frase que entrega tudo. É o que se acha moderno, desconstruído, evoluído, até ser confrontado com algo que desafia seu mundinho confortável. Ele não grita, não bate no peito, não se assume. Prefere o preconceito gourmet, temperado com justificativas e boas intenções.

E o mais curioso é que essas categorias, raiz e Nutella, são gírias novas, memes recentes, coisa de 2016 pra cá. Mas o preconceito, esse é antigo. Antiquíssimo... Só ganhou novas embalagens.

No fim das contas, continuo aqui, com meu preconceito contra o preconceito. Talvez seja o único tipo que eu aceito carregar sem culpa. Porque, se for pra escolher um lado, fico com o lado que tenta, pelo menos tenta, fazer o mundo um pouco menos estreito.

Às vez eu acho que pessoas Nutella podem estar abertas, se quiserem, a adquirem novas informações, conhecimentos... Ou sei lá, às vezes é só minha visão mesmo...