Até que sou uma pessoa com paciência e tolerância para algumas coisas, claro. Sempre achei que paciência fosse uma espécie de músculo: quanto mais a gente usa, mais forte fica. Mas, ao que tudo indica, com o passar dos anos ele também sofre desgaste, como joelho de quem subiu muita escada na vida. E eu, que sempre me considerei alguém paciente e tolerante, tenho percebido que algumas coisas andam me tirando do sério com uma facilidade quase olímpica.
E nada tem me irritado mais do que essa mania que o mundo, ou melhor,
algumas pessoas, têm de me tratar como criança e, isso, confesso, me irrita
mais do que eu gostaria de admitir. Não criança no sentido poético, de quem
ainda vê encanto nas coisas. Criança no sentido literal mesmo, de quem não
sabe, não pode, não entende... A que precisa que falem por ela às vezes, e de
preferência em público principalmente, para aumentar a humilhação (que bad
gente).
Eu sei, claro, que para os pais a gente nunca cresce de verdade. É quase uma lei da natureza: filhos permanecem pequenos na memória afetiva, mesmo quando já tem cabelos grisalhos, algumas rugas
(será?), já pagam boletos (não é meu caso ainda) e reclamam de dor nas costas.
Mas existe um plot twist nessa história que costuma complicar ainda mais essa equação: ser filha atípica.
Pais atípicos, ou seja, pais de filhos com deficiência e, aqui falo com todo
cuidado, porque sei que cada família é um universo, parecem viver com uma
dúvida permanente estampada no olhar. Cada coisa que faço, cada decisão que
tomo, cada passo que dou, vira uma interrogação silenciosa: “É ela… ou é a
deficiência?” Como se eu fosse duas pessoas separadas, uma encaixada dentro da
outra, e eles nunca soubessem qual das duas está no comando.
E eu fico ali, no meio desse malabarismo identitário, tentando provar que
sou adulta. Não a adulta idealizada, perfeita, organizada, com planilhas e manual-de-instruções
de maturidade. Mas a adulta que eu posso ser, a adulta possível. A que existe
do meu jeito, com minhas possibilidades, meus limites, minhas conquistas,
minhas teimosias e meu caos perfeitamente funcional. (pode não ser
funcional para os outros, mas para mim é).
Costumo dizer, meio brincando, meio pedindo socorro, que só preciso que me deixem ser adulta do jeito que posso ser. Não é tão complicado assim. Ou talvez seja, para quem ainda insiste em me ver com a idade que eu já não tenho faz tempo.
No fim das contas, acho crescer é isso né:
Não apenas aprender a lidar com o mundo, mas ensinar o mundo a lidar com a gente. E, convenhamos, esse trabalho dá muito mais trabalho do que deveria.