quinta-feira, 30 de julho de 2026

“Treinar a parte lesada a fazer o que a parte não lesada faz”


Primeiro, para leigos entenderem: parte lesada é pedaço do corpo onde a vida resolveu deixar uma marca. Uma lembrança permanente de que em algum momento algo aconteceu. Corresponde onde é ou foi a lesão ocasionada por algo em determinada fase da vida. No meu caso, desde o capítulo 1 da minha história!

Segundo e acho que o mais importante: todo cérebro aprende, sendo típico ou atípico, daí a neuroplasticidade cerebral, essa capacidade incrível do cérebro de aprender, reaprender, se organizar. Olha que legal?! Mas já vou avisando que não é tão simples quanto parece tá...dá trabalho e precisa de muito treino.

Você tem controle sobre si? Depende...às vezes ou na grande maioria, pode ser um processo bastante complicado, que poderia até cobrar ingresso para quem quisesse assistir 😊.

E sobre a outra pessoa? aí não né...K Estamos pedindo demais né gente!

Na verdade, comecei esse texto por que, para variar, nesse hiato de tempo da faculdade (volto na quinta-feira), entrei em contato de novo com minha porção curiosa e, entre os dia 13 e 21 de julho, me peguei mergulhada no 1º congresso de neurociência. Claro que esse congresso funcionou como um dominó: uma frase derruba uma, que derruba outra, até que acerta em cheio uma memória antiga. E pronto, lá vem reflexão...vamos ver😉?

Uma coisa que sempre me incomodou, hoje um pouco menos, mas cutuca ainda, é esse hábito de colocar todas as pessoas com deficiência no mesmo balaio. Como se fôssemos versões diferentes do mesmo modelo. Não somos. Temos limitações distintas, sintomas que variam, histórias que não cabem em rótulos. Às vezes até carregamos o mesmo nome da deficiência, mas o conteúdo é outro, como livros com capas iguais e textos completamente diferentes.

Durante o congresso, uma frase puxou outra, que puxou outra, até que uma delas me lembrou de algo essencial: “A criança neuroatípica não aprende menos, aprende diferente.” E foi aí que o título desse texto se encaixou de novo na minha memória: precisamos de estimulação, de tempo, de ritmo próprio. Cada pessoa aprende do seu jeito, e às vezes esse jeito é mais lento do que o esperado, ou do que o mundo gostaria que fosse.

O que existe, e isso é comprovado diariamente, é que a bagagem neurobiológica que carregamos não deveria ser usado como desculpa para tais e tais comportamentos. Convenhamos, seria muito mais cômodo dizermos para os outros e para nós mesmos: faço isso ou não faço aquilo por conta da minha deficiência...Gente! Pela amor de Deus, não façam isso! Sim, a deficiência faz parte, mas poxa vida, existem várias formas para se reinventar, se quiser, claro😉Ou como li na apostila de um dos dias do curso: “O diagnóstico neurobiológico não deve ser utilizado como "desculpa" para comportamentos mal adaptativos”.

Claro que sei que pessoas atípicas, cérebros atípicos, na maioria das vezes a estrutura cerebral pode encontrar alguns desvios, algumas trilhas meio fora do caminho, mas com prática, com treino, com paciência (e humor, sempre humor), acredito que pode-se tirar o melhor proveito😉

Porque aprender, a gente aprende. O cérebro aprende. Eu aprendo. Mesmo que seja preciso treinar, todos os dias, a parte lesada a fazer o que a parte não lesada faz sem pensar. No fundo, é só mais uma forma de existir. E, sinceramente, até que tem sua beleza.