sexta-feira, 31 de julho de 2026

A arte voltou...mas também acho que nunca me deixou ;)

 A arte voltou...

Na verdade, pensando bem, ela nunca foi embora.

Já me apresentei algumas vezes antes, mas nunca dessa forma. Então, espera. Para tudo. Rebobina a fita. Vamos começar do começo.

Desde pequenininha, já tinha um certo costume de brincar de ser outra ou outras pessoas. Inventava personagens, criava histórias, vidas e mundos diferentes, dramatizava situações. Embora, sejamos justos, muita gente diria que isso é apenas uma característica típica de uma leonina fazendo seu trabalho. E talvez tenha um pouco disso também 😊

Mas a verdade é que, desde cedo, existia uma vontade curiosa de habitar outras vidas, narrativas que não cabiam só em mim. Hoje entendo que não era exatamente uma vontade de atuar. Era uma vontade de contar histórias. De emprestar minha voz, o corpo, o olhar para aquilo que queria existir no mundo.

Alguns dizem que eu sempre fui amostrada. Outros preferem os termos modernos, de delulu, que com carinho e um pouco de deboche foi lembrado na peça do dia 29 de julho de 2026. Mas essa história eu deixo para depois.

O fato é que a arte cruzou meu caminho. Ou talvez eu tenha caminhado em direção a ela. Difícil saber quem encontrou quem primeiro. E quando ela chegou, chegou mexendo em lugares sensíveis. Como quem cutuca uma ferida para lembrar que ela existe, mas também para ajudar na cicatrização. Para pessoas com deficiência, esse movimento não é algo incomum. Muitas vezes a vida já nos coloca diante de dores, limites e questões que precisamos revisitar mais vezes do que gostaríamos.

Foi aí que a arte começou a fazer sentido.

A arte do desenho. A arte da dança. A arte do teatro. Cada uma delas abrindo uma fresta, uma janela, uma possibilidade. Cada uma oferecendo formas diferentes de dizer aquilo que às vezes não cabia nas palavras.

E quando as palavras passaram a caber, veio a escrita. Hoje, escrever é uma das artes que mais me acompanha. É essa companheira fiel que ajuda a organizar bagunças internas, celebra pequenas ou grandes conquistas, transforma memórias e sentimento em algo que possa ser compartilhado.

E, mais recentemente, o teatro voltou a me chamar. Já havia passado por lá antes, quando pequena, algumas oficinas. depois no Dulcina, e agora foi a vez do 4º Festival de Cultura Inclusiva do DF. Ou talvez o pequeno sussurro do teatro tenha se feito mais alto dessa vez.

Só sei que, ao subir ao palco novamente, senti algo muito familiar. Como rever um velho amigo depois de muito tempo. Daqueles que você não precisa reapresentar, porque a conversa simplesmente continua de onde havia parado. Diferente do Dulcina, agora havia outras especificidades, outras energias, outras vivências. Um mundo inteiro de diversidade pulsando ao redor — não só nas deficiências, mas nas histórias, nas potências, nas singularidades.

No começo, confesso que veio o susto bom: o encantamento de perceber que fazia parte de algo raro. A chance de contar e vivenciar histórias que dialogavam com a minha, mas também com tantas outras que nunca tinha habitado.

Por isso digo, sem medo de errar: a arte voltou. Mas, no fundo, acho que ela nunca saiu, talvez só tenha ido dar uma voltinha. Ela apenas ficou quietinha, esperando o momento certo para entrar novamente em cena. ✨

Em qual será o próximo ato? 😉

 

quinta-feira, 30 de julho de 2026

“Treinar a parte lesada a fazer o que a parte não lesada faz”


Primeiro, para leigos entenderem: parte lesada é pedaço do corpo onde a vida resolveu deixar uma marca. Uma lembrança permanente de que em algum momento algo aconteceu. Corresponde onde é ou foi a lesão ocasionada por algo em determinada fase da vida. No meu caso, desde o capítulo 1 da minha história!

Segundo e acho que o mais importante: todo cérebro aprende, sendo típico ou atípico, daí a neuroplasticidade cerebral, essa capacidade incrível do cérebro de aprender, reaprender, se organizar. Olha que legal?! Mas já vou avisando que não é tão simples quanto parece tá...dá trabalho e precisa de muito treino.

Você tem controle sobre si? Depende...às vezes ou na grande maioria, pode ser um processo bastante complicado, que poderia até cobrar ingresso para quem quisesse assistir 😊.

E sobre a outra pessoa? aí não né...K Estamos pedindo demais né gente!

Na verdade, comecei esse texto por que, para variar, nesse hiato de tempo da faculdade (volto na quinta-feira), entrei em contato de novo com minha porção curiosa e, entre os dia 13 e 21 de julho, me peguei mergulhada no 1º congresso de neurociência. Claro que esse congresso funcionou como um dominó: uma frase derruba uma, que derruba outra, até que acerta em cheio uma memória antiga. E pronto, lá vem reflexão...vamos ver😉?

Uma coisa que sempre me incomodou, hoje um pouco menos, mas cutuca ainda, é esse hábito de colocar todas as pessoas com deficiência no mesmo balaio. Como se fôssemos versões diferentes do mesmo modelo. Não somos. Temos limitações distintas, sintomas que variam, histórias que não cabem em rótulos. Às vezes até carregamos o mesmo nome da deficiência, mas o conteúdo é outro, como livros com capas iguais e textos completamente diferentes.

Durante o congresso, uma frase puxou outra, que puxou outra, até que uma delas me lembrou de algo essencial: “A criança neuroatípica não aprende menos, aprende diferente.” E foi aí que o título desse texto se encaixou de novo na minha memória: precisamos de estimulação, de tempo, de ritmo próprio. Cada pessoa aprende do seu jeito, e às vezes esse jeito é mais lento do que o esperado, ou do que o mundo gostaria que fosse.

O que existe, e isso é comprovado diariamente, é que a bagagem neurobiológica que carregamos não deveria ser usado como desculpa para tais e tais comportamentos. Convenhamos, seria muito mais cômodo dizermos para os outros e para nós mesmos: faço isso ou não faço aquilo por conta da minha deficiência...Gente! Pela amor de Deus, não façam isso! Sim, a deficiência faz parte, mas poxa vida, existem várias formas para se reinventar, se quiser, claro😉Ou como li na apostila de um dos dias do curso: “O diagnóstico neurobiológico não deve ser utilizado como "desculpa" para comportamentos mal adaptativos”.

Claro que sei que pessoas atípicas, cérebros atípicos, na maioria das vezes a estrutura cerebral pode encontrar alguns desvios, algumas trilhas meio fora do caminho, mas com prática, com treino, com paciência (e humor, sempre humor), acredito que pode-se tirar o melhor proveito😉

Porque aprender, a gente aprende. O cérebro aprende. Eu aprendo. Mesmo que seja preciso treinar, todos os dias, a parte lesada a fazer o que a parte não lesada faz sem pensar. No fundo, é só mais uma forma de existir. E, sinceramente, até que tem sua beleza.