Bem... Depois do curso de Educação Anticapacitista, alguma coisa em mim se remexeu. Talvez curiosidade, talvez teimosia, talvez aquela vontade antiga de entender melhor o que sempre, ou quase sempre, me atravessou. O fato é que me vi mergulhada em outro curso, mais especificamente um curso chamado Neuropsicologia Centrada no Cliente. Foram 3 dias intensos, daqueles que deixam a cabeça fervendo, com anotações, questões divergentes e inquietantes. E claro, como sempre, meu fiel caderninho me acompanhou nessa jornada.
E, enquanto fazia minhas anotações de costume, percebi algo
que me cutucava já fazia tempo: não pude deixar de me lembrar de que todos temos
dificuldades e facilidades, mas tenho a impressão de que quando se tem alguma
deficiência, algumas pessoas tendem a enxergar mais as dificuldades e esquecem
que temos outras partes também.
Logo na primeira aula, veio um tema que confesso ainda me
causa um certo desconforto (sim, mesmo depois de tantos anos, mas estou lidando
com isso, está bem?...): diagnóstico e se ele realmente rotula. Bom...depois de anos
de convivência com minha circunstância, cheguei à conclusão meio torta, mas
sincera, de que rótulos existem e a gente tropeça neles a vida inteira, o
desafio é aprender a caminhar apesar deles. Como se vive com isso? Uma coisa eu
garanto, não é fácil, nunca foi.
A segunda aula trouxe a questão da avaliação neuropsicológica.
Confesso que nessa hora, meu estômago deu até uma revirada e, por mais inquietante
que possa parecer essa tema para mim, fui em frente (vai que dando uma chance,
descubro algo diferente do que já vi né). Foi aí que surgiram algumas perguntas
que me atravessam até hoje. Vamos lá...? Como se reconhecer em meio ao que dizem
sobre você? Como filtrar o que é dado técnico do que é projeção alheia? Como
isso reverbera na vida, nas escolhas, na autoestima?
E então chegamos à terceira e última aula, quando foi falado
sobre a "temida" devolutiva. Aí fico pensando: por que tem que ser temida? Talvez
porque ninguém esteja preparado para ouvir algo que pode virar a própria vida
de cabeça para baixo. Acho que tudo depende de como se diz, de quem diz, e de
como se olha para quem está ouvindo. Receber uma notícia desconcertante não é simples,
mas também não precisa ser um terremoto.
Vejam, no final das contam, diagnóstico é importante, mas não
é tudo. Por exemplo, eu não sou o que tenho, sou a Júlia e tenho uma
deficiência, não é ela que me tem. Não nego o que tenho, até porque sou lembrada
disto constantemente. Hoje, mais velha, percebo que conviver com nossas
particularidades e singularidades, sem negar o que temos e como somos, se torna
cada vez mais fundamental e, com isso não digo que seja fácil viu...Não vou
romantizar nada, até porque já sofri bastante com isso e aquilo outro, mas com
o tempo algumas coisas parecem ser mais possíveis do que se pensava antes.
Nenhum comentário:
Postar um comentário