quinta-feira, 9 de abril de 2026

SOS...

 Terça feira, dia 7 de abril de 2026, enquanto assistia a um filme denso num cinema aqui de Brasília, uma frase me atravessou como uma flecha: tem gente que gosta de flertar com o perigo. Acredito que não seja intencionalmente, ou assim espero, mas como não sou psicóloga, pelo menos não formada ainda, o que me peguei pensando me intrigou bastante e, por lá ficou.

Claro que o filme nem era exatamente sobre perigo, é sobre outra coisa (embora acredito que haja uma relação entre perigo e o que propõe o filme) mas, mesmo assim...a temática do filme em questão está relacionada a crimes de ódio, para dizer o mínimo. Também tenho a dizer sobre crimes de ódio mas hoje, aliás terça, o que ficou em minha mente foi o perigo e porque algumas pessoas procuram por ele.

E, como acontece com pensamentos que chegam assim, abruptos, quase insolentes, ele permaneceu comigo desde então. Me acompanhou até a saída do cinema e seguiu no trajeto de volta para casa. E quanto mais tentava ignorá-lo, mais ele se expandia, como se tivesse encontrado ali um terreno fértil.

Lembrei-me daquela frase que o Simba, do filme Rei Leão, de 1994, disse: eu rio da cara do perigo. Depois, a imagem da personagem da psiquiatra Drª Quinzel deslizando lentamente para dentro do caos que era o Coringa, se tornando Arlequina, ao se apaixonar por seu paciente (não porque queria o mal, mas porque o perigo, para ela, tinha um sorriso sedutor demais) no universo dos quadrinhos.

Fiquei com isso na cabeça... Por que o perigo é tão sedutor? E por que existem pessoas que flertam com ele? E aí a pergunta se impôs: se o perigo fosse uma pessoa, como seria?

Talvez tivesse olhos que brilham mais do que deveriam, daqueles que fazem você esquecer por um instante que luz demais também cega. Talvez falasse baixo, com uma calma que desarma. Talvez soubesse exatamente quando se aproximar, nunca cedo demais, nunca tarde demais. O tipo de presença que faz o coração acelerar, mas você não sabe se é de medo ou de fascínio.

O perigo, se fosse gente, provavelmente teria esse talento estranho de fazer você se sentir viva. Não porque oferece segurança, mas porque te coloca na beira do abismo e sussurra: olha como o mundo é grande daqui de cima.

E por que algumas pessoas flertam com ele?

Talvez porque o perigo promete aquilo que o cotidiano raramente entrega: intensidade. Talvez porque, no fundo, exista uma curiosidade quase primitiva de tocar o fogo só para ver se queima mesmo. Ou porque algumas almas se acostumaram tanto ao caos que o silêncio as assusta mais do que o risco.

Ou, quem sabe, porque o perigo, assim como certos personagens de cinema, sabe exatamente como entrar na mente de alguém e ficar lá, rondando, provocando, perguntando.

E, saindo do cinema naquela noite, percebi que o perigo não é apenas uma força externa. Às vezes, ele é uma pergunta. Uma inquietação. Uma sombra que se move dentro da gente.

E talvez seja por isso que ele seduz tanto. Porque, no fundo, ele nos obriga a olhar para partes de nós que preferimos manter escondidas.

Foi aí então que o pensamento deu outra guinada, comecei a pensar nos perigos relacionados à deficiência. Quando penso nos perigos relacionados à deficiência, percebo que não se trata apenas de obstáculos físicos ou barreiras arquitetônicas. O perigo também pode surgir das atitudes, do olhar alheio que, muitas vezes, subestima ou invisibiliza. Existe um risco silencioso de ser reduzido a um rótulo, de perder nuances e sonhos porque o mundo insiste em enxergar apenas uma parte de quem se é. Além disso, o perigo pode estar no cotidiano: desde a falta de acessibilidade até o medo de não ser compreendido ou protegido em situações de emergência. Para quem vive com deficiência, o perigo frequentemente se apresenta disfarçado de indiferença ou descaso, tornando a vida uma constante negociação entre o desejo de autonomia e a necessidade de segurança.

Tenho uma deficiência física e isso automaticamente, ou não, torna o mundo perigoso para mim. Obstáculos, dúvidas (dos outros e minhas), o querer e realmente poder, porque é muito bonito o ditado: querer é poder mas, hoje observo que nem sempre é assim.

E talvez seja por isso que aquela frase no cinema me atravessou tanto. Porque, no fundo, o perigo não é apenas aquilo que ameaça. Às vezes, ele é aquilo que revela. Aquilo que expõe. Aquilo que nos obriga a admitir que viver, para algumas pessoas, é um ato de coragem diária.

E, naquela terça-feira, percebi que o perigo não estava só na tela. Ele estava comigo. E eu, de algum modo, estava tentando entendê-lo.

2 comentários:

  1. Agora quero saber qual filme vc viu! Sabe que o TDAH meio que nos faz perder um pouco o bom senso. Agir por impulso e se arriscar. Acho que o "perigo" acaba se tornando atrativo ou um obstáculo que pode ser facilmente superado.. 🤔 fiquei pensando um pouco sobre isso agora.
    Beijão!

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  2. Nuremberg, embora o tema não seja perigo kkkk

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