A arte voltou...
Na verdade, pensando bem, ela nunca foi embora.
Já me apresentei algumas vezes antes, mas nunca dessa forma.
Então, espera. Para tudo. Rebobina a fita. Vamos começar do começo.
Desde pequenininha, já tinha um certo costume de brincar de
ser outra ou outras pessoas. Inventava personagens, criava histórias, vidas e
mundos diferentes, dramatizava situações. Embora, sejamos justos, muita gente
diria que isso é apenas uma característica típica de uma leonina fazendo seu
trabalho. E talvez tenha um pouco disso também 😊
Mas a verdade é que, desde cedo, existia uma vontade curiosa
de habitar outras vidas, narrativas que não cabiam só em mim. Hoje entendo que
não era exatamente uma vontade de atuar. Era uma vontade de contar histórias.
De emprestar minha voz, o corpo, o olhar para aquilo que queria existir no
mundo.
Alguns dizem que eu sempre fui amostrada. Outros preferem os
termos modernos, de delulu, que com carinho e um pouco de deboche foi lembrado
na peça do dia 29 de julho de 2026. Mas essa história eu deixo para depois.
O fato é que a arte cruzou meu caminho. Ou talvez eu tenha
caminhado em direção a ela. Difícil saber quem encontrou quem primeiro. E
quando ela chegou, chegou mexendo em lugares sensíveis. Como quem cutuca uma
ferida para lembrar que ela existe, mas também para ajudar na cicatrização.
Para pessoas com deficiência, esse movimento não é algo incomum. Muitas vezes a
vida já nos coloca diante de dores, limites e questões que precisamos revisitar
mais vezes do que gostaríamos.
Foi aí que a arte começou a fazer sentido.
A arte do desenho. A arte da dança. A arte do teatro. Cada
uma delas abrindo uma fresta, uma janela, uma possibilidade. Cada uma
oferecendo formas diferentes de dizer aquilo que às vezes não cabia nas
palavras.
E quando as palavras passaram a caber, veio a escrita. Hoje,
escrever é uma das artes que mais me acompanha. É essa companheira fiel que
ajuda a organizar bagunças internas, celebra pequenas ou grandes conquistas, transforma
memórias e sentimento em algo que possa ser compartilhado.
E, mais recentemente, o teatro voltou a me chamar. Já havia
passado por lá antes, quando pequena, algumas oficinas. depois no Dulcina, e
agora foi a vez do 4º Festival de Cultura Inclusiva do DF. Ou talvez o pequeno sussurro
do teatro tenha se feito mais alto dessa vez.
Só sei que, ao subir ao palco novamente, senti algo muito
familiar. Como rever um velho amigo depois de muito tempo. Daqueles que você
não precisa reapresentar, porque a conversa simplesmente continua de onde havia
parado. Diferente do Dulcina, agora havia outras especificidades, outras
energias, outras vivências. Um mundo inteiro de diversidade pulsando ao redor —
não só nas deficiências, mas nas histórias, nas potências, nas singularidades.
No começo, confesso que veio o susto bom: o encantamento de
perceber que fazia parte de algo raro. A chance de contar e vivenciar histórias
que dialogavam com a minha, mas também com tantas outras que nunca tinha
habitado.
Por isso digo, sem medo de errar: a arte voltou. Mas, no
fundo, acho que ela nunca saiu, talvez só tenha ido dar uma voltinha. Ela
apenas ficou quietinha, esperando o momento certo para entrar novamente em
cena. ✨
Em qual
será o próximo ato? 😉
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