Não sou o tipo de pessoa que acumula preocupações, muito pelo contrário, tento evitá-las sempre que posso. Aliás, faço até um esforço para descartar certas palavras do meu vocabulário que acabam pesando o clima. Mas eventualmente elas aparecem para atormentar nossa vida.
Nasci,
como muitos sabem, com uma deficiência física. E isso, inevitavelmente traz algumas
questões que são meio difíceis de ignorar. E na verdade nem é produtivo tentar
ignorar, até porque é cobrado diariamente.
Além da deficiência,
as cirurgias ortopédicas também fazem parte da minha história. Essa combinação torna
minha relação com o corpo mais complexa do que gostaria de admitir. Não se
trata apenas de limitações físicas, mas também de expectativas, da forma como
cada movimento é observado, interpretado e de como me enxergo. Afinal, além das
limitações permanentes, enfrento restrições temporárias que também me afetam e
exigem um processo de adaptação para que eu possa me realinhar depois.
Crescer assim me ensinou uma coisa que talvez eu não tivesse aprendido de
outro jeito: o corpo fala, mesmo quando eu não quero. Às vezes ele grita também 😂 Ele é pauta, é assunto, é
justificativa, é explicação. Às vezes é até desculpa, não minha, mas dos
outros. E por mais que eu tente não acumular preocupações, existe uma espécie
de vigilância constante, uma necessidade de estar sempre pronta para responder,
esclarecer, justificar.
Mas também existe o outro lado. O lado em que eu aprendi a me olhar com mais gentileza. A entender que complexidade não é defeito. Que carregar histórias no corpo é, de certa forma, uma forma de
resistência. Que viver com tudo isso não me faz menos capaz, só me faz mais consciente.
E talvez seja por isso que eu escrevo:
para transformar o que poderia ser só peso em narrativa. Para lembrar que, apesar das cobranças, das cirurgias, das palavras que tento evitar, existe vida acontecendo aqui. Uma vida que não cabe em rótulos, nem em diagnósticos, nem em expectativas alheias.
Uma vida que segue, complexa, sim, mas minha.