quarta-feira, 25 de março de 2026

Eternos “E se”...

 De vez em quando, sem aviso prévio, minha cabeça resolve brincar de roteirista. Abre uma gaveta imaginária, tira de lá um punhado de possibilidades e começa a espalhar pela mesa: e se isso tivesse acontecido? E se eu tivesse dito aquilo? E se aquela pessoa tivesse me visto de outro jeito? Os “e se” não têm a menor delicadeza. São como um elefante passeando numa loja de cristais, derrubando prateleiras com a maior naturalidade.

Culpa, talvez, de um filme que vi lá em 2010, Cartas para Julieta. Uma fala ficou presa em mim como chiclete no cabelo: “E” e “se”, duas palavras simples. Mas juntas… podem causar estragos inimagináveis.” Pois bem. Estamos em 2026 e eu ainda tropeço nessa frase como quem reencontra uma pedra velha no caminho, aquela que você jura que vai desviar do caminho mas acaba pisando.

Cresci consumindo amor embalado para presente: filmes, músicas, novelas, histórias que prometiam um encontro perfeito com um homem perfeito, no momento perfeito. Só esqueceram de avisar um detalhe, um detalhe enorme, gritante, impossível de ignorar: aquele amor não era para mim. Era para mulheres sem deficiência. Para as outras. Para as que cabiam no molde.

E eu?

Onde eu entrava nessa vitrine?

Lembro de ter escrito, quando mais nova, “Uma história feliz, por favor?”. Hoje releio e penso: que tola. Mas talvez não fosse tolice. Talvez fosse só como me sentia na época, a esperança de quem ainda acreditava que o mundo podia me enxergar inteira.

As histórias românticas, as mais vendidas, as mais comentadas, raramente têm mulheres como eu. E por quê? Por que nossos corpos, nossas vidas, nossos desejos não cabem nesses roteiros? Por que, quando o amor é sobre nós, precisa virar superação, lição, drama?

Já suspirei por músicas, já me perdi em livros, já fui noveleira de carteirinha. E sempre voltava aquela pergunta incômoda, quase infantil, quase cruel: quando será minha vez?

E se os meninos que gostei me vissem além da minha deficiência?

E se me enxergassem como mulher antes de qualquer outra coisa?

E se… e se… e se…

Esses pensamentos ainda aparecem, mas hoje eles já não me paralisam. Incomodam, claro, como etiqueta de roupa pinicando no pescoço. Mas não me definem mais. Aprendi a não me medir pela régua dos outros, embora às vezes ainda tente, talvez por hábito antigo.

Nunca fui de dizer “eu te amo” por esporte. Essa frase, para mim, é quase um sacramento. Ou é verdade ou não é. Não existe meio-termo. Quando digo, é porque algo em mim se abriu, se entregou, se expôs. Mas quando desapego também....ixi!

E talvez por isso doa tanto quando zombam do que escrevo, do que sinto, do que deixo escapar nas palavras. Eu me exponho em tudo que faço, ou quase tudo😊, e rir disso é rir de mim.

O que sinto agora, por qualquer pessoa, não é cobrança, nem pedido, nem expectativa. É só um sentimento que existe. Que pulsa. Que me lembra que estou viva.

Que posso amar, mesmo que o mundo insista em me colocar fora das histórias de amor. O que atualmente está mudando viu, aos poucos, mas está😉

E talvez, só talvez, o maior “e se” da minha vida seja esse:

E se eu for, finalmente, a protagonista da minha própria história?