Não sou de polemizar, muito menos de causar nenhum desconforto, mas entre o dia 27 e 29 de abril desse ano, enquanto participava do 3º Congresso Brasileiro Estudos sobre as Pessoas com Deficiência e Demandas Psicossociais (tinha participado só do 1º, em 2024), no formato online, algo me cutucou por dentro. Daqueles cutucões que fazem a gente levantar a sobrancelha e pensar: ué, será que só eu ouvi isso?
Estava lá,
caderninho aberto, como sempre faço em cursos online, anotando impressões,
frases soltas, ideias que me atravessam. No primeiro dia, ouvi a seguinte
pérola: “Esqueçam aquela ideia de que deficiência é sinônimo de
limitação”. Não pude
interromper, como numa aula mesmo, mas pensei bem alto dentro
de mim: Calma, moça… não existe limitação?
Eu convivo com as minhas
diariamente. Até converso como elas de vez em quando. Aprendo com elas.
As
limitações que me acompanham desde o instante que nasci, hoje percebo que não
me limitam, me desafiam. Sei e se não sei aprendo que, se não consigo de um
jeito, tento de outro. O que não pode e não deve é transformar limitação em
sinônimo de incapacidade. Aí, sim, a gente tropeça no preconceito alheio.
Tenho uma
deficiência, mas não é ela que me tem. Isso precisa ficar bem claro, por mais
difícil que pareça e mesmo quando o mundo insiste em embaralhar as coisas.
O
congresso foi ótimo, abordou temas importantes, dos quais gostei bastante, mas lá
estava eu, fiel ao meu caderninho, anotando tudo o que fazia sentido, e o que
não fazia também😉Afinal,
convivo com minha deficiência desde pequenininha e ela é minha, não no sentido
de posse, mas de intimidade. Pois existe uma complexidade em vivenciar a
deficiência que que não cabe em slide, mesa-redonda ou discurso empolgado. Que
mesmo cheio de gente ao nosso redor, muitas vezes travamos batalhas
silenciosas: o sentimento de inadequação que aparece sem ser convidado, a luta
diária pelo direito de existir e ocupar espaço, a insistência em não deixar que
o mundo nos diminua. É um trabalho que, no fim das contas, fazemos muito mais
conosco do que com qualquer outra pessoa. E isso é mais conosco mesmo.
E talvez seja por isso que aquela frase me intrigou tanto. Não porque
estivesse errada, mas porque parecia ignorar que, antes de superações e
discursos bonitos, existe vida real. E na vida real, limitação existe, sim. O
que não existe é desistência.
E o resto
do congresso? .... Ah, o resto, deixo para os próximos capítulos. Ou não...Sabe,
foram três dias de congresso, mas o que realmente mexeu com minhas estruturas
foi isso 😊